Dinheiro demais
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Você ganha dinheiro demais

Não, não é uma pegadinha e o texto não terá nenhuma “virada” ou “pivô” ou o raio do nome que você queira dar. Quero dizer exatamente o que eu disse no título – você ganha dinheiro demais. Acostumamo-nos a reclamar das mazelas econômicas, enquanto pedimos um café na fila do Starbucks ou esperamos pacientemente como cordeiros no salão de espera de uma churrascaria cujo rodízio de R$ 79,90 por pessoa está na “promoção”. Reclamamos do dólar, que atinge hoje sua maior cotação desde que Fernando Henrique Cardoso deixou a presidência; maldizemos os juros do cheque especial e do cartão de crédito, embora os utilizemos para viajar para Cancún; damos “like” nos absurdos dos preços de ovos de Páscoa e similares, mas gastamos o equivalente a R$ 100,00 o quilo todas as vezes em que compramos uma barra de chocolate “pocket”, hoje com 20 gramas (quando estudei no ginásio, eram 85 gramas).

Ganhamos dinheiro demais e, como brasileiros, não somos melhores do crianças no shopping. Compramos o que achamos bonito, gostoso, colorido e fofinho, mas reclamamos na hora de pagar uma conta de água de R$ 50,00 em um mês, ou contas de energia na casa dos R$ 150,00. Enchemos a porra do saco com o preço do tomate ou da cebola, que chegou em “absurdos” 8 ou 10 mangos, mas achamos lindo parar o carro financiado em um valet que cobra R$ 25,00 para deixar o carro na rua. Como ricos caricatos de filmes e desenhos animados, acendemos charutos com notas de 100 reais.

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Ok, mas isso aqui é um blog sobre startups e isso não tem nada a ver com o segmento, correto? Errado – tem tudo a ver. Startups ganham dinheiro demais. Cansei de ouvir a história do “só conseguimos uma rodada inicial de R$ 50 mil”. Posso ser honesto? Para quem tinha, ainda ontem, só uma ideiazinha bonitinha e “menos” alguns reais na conta corrente, é dinheiro pra cacete. Mas somos brasileiros, e como nossos governantes, achamos que tudo que não termina com a palavra “milhões” simplesmente não vale a pena.

Boa notícia

A boa notícia é que agora estamos na merda. Parece irreal, mas em 12 ou 15 anos não tivemos uma notícia tão boa quanto essa. Empreendedores que há dois ou três anos estavam “brincando de casinha” com startups começaram a criar empresas, startups ou não, para ganhar dinheiro e não para aparecer nas páginas da INFO, ou Pequenas Empresas Grandes Negócios, ou aqui ou ali. Freelancers começaram a produzir mais e reclamar menos, pegando mais trabalho por menos dinheiro e não o inverso, que é raro. Empresas estabelecidas estão indo para o buraco e o novo, inteligente e simples finalmente ganha uma chance real, longe da gordura “trans” do empresariado brasileiro, que reclama de custos e impostos, mas não faz um cacete para se livrar deles com abordagens inovadoras.

O Brasil está no buraco e para nós, que até ontem ganhávamos dinheiro demais, isso é na verdade uma luz no fim do túnel. Na próxima década, é provável que vejamos empresas surgirem do nada, eficientes, modernas, inovadoras e preparadas não apenas para “sobreviver” à crise, mas para nascer a partir dela.

Escalar sem dinheiro

O argumento dos R$ 50 mil lá atrás é que “não dá pra escalar”. Serei rápido e claro: que tal escalar o Morro da Urca para depois tentar o Everest? Como no alpinismo, mesmo os mais experientes profissionais volta e meia caem duros e congelados antes mesmo de chegar ao cume de um Everest, K2 ou similares. Será que algum alpinista no mundo, antes mesmo de iniciar sua carreira, pensa em seguir para o Nepal e simplesmente subir o Everest, na raça? Pouco provável e, se alguém o fez, provavelmente está agora debaixo de alguns metros de neve compacta.

A grande verdade é que QUALQUER dinheiro pode colocar um modelo de negócio em prática. Pode ser difícil, exigir improviso, mudanças de plano, mas é sempre possível. Contudo, como crianças no shopping, preferimos comprar o chocolate da Kopenhagen ao invés de levar para casa um quilo de chocolate em barra e prepararmos nós mesmos uma trufa, por pouco mais de R$ 0,50. A comparação é torpe? Na verdade, torpe é meter R$ 1 milhão em alguém que não consegue rodar um modelo com R$ 50 mil.

Técnica da mesada

O cartão de crédito fodeu com mais de uma geração. Admito – fui parcialmente fodido pelo cartão de crédito. Contudo, ainda lembro dos tempos da mesada. O cartão não vale – tem truque, seu pai pode liberar mais grana, é sempre possível atender a emergências. Na época da mesada, você ia viajar pelo Nordeste com dinheiro no bolso. Gastava mais do que devia, comia pão com salsicha por uma semana. Cansei de improvisar, cozinhar para cinco ou seis com o dinheiro de um maço de cigarro, dormir na praça e deixar as malas com o dono da farmácia, e por aí vai. A mesada desenvolvia uma capacidade de improviso e empreendedorismo que hoje não vemos por aí com tanta facilidade.

Técnica da Mesada

Não se trata de comparar gerações – a minha tinha suas merdas, e ainda as têm. A questão é aprender com o que já passou. Proponho aqui aos investidores, aceleradoras e até fundadores de startups o desafio da mesada – empreendedores terão X reais cada por mês, e ponto. Quer torrar tudo em Black Label? Manda ver, mas não faz biquinho quando ouvir que “só no mês que vem”.

Ideias somente são úteis quando resolvem problemas – então comecem a pensar primeiro no problema do dinheiro e depois, quem sabe, nos problemas de sua empresa quando ela finalmente se comportar como uma.

Um comentário

  1. Jonnathan Barcelos says:

    Cara, fantástico seu texto, você deve ser odiado nesse meio kkkk, mas brincadeiras a parte é uma das coisas que penso principalmente sobre essas Startups que vislumbram a grana, mas a ideia das mesmas não condizem com o momento econômico. Quando o cinto aperta pé no chão e boas ideias são um bom começo.