Startups: segunda bolha “pontocom” ou reinvenção da economia de mercado?

O fênomeno das startups e pesados investimentos, aquisições, vendas e negociações no setor já dura agora alguns anos e, sem dúvida, questionamentos surgem a respeito da sustentabilidade do modelo e até mesmo da existência de uma nova “bolha”. Embora alguns argumentos realmente possuam um caráter verídico e comprovável, o fato é que o mundo de hoje é bem diferente do mundo da primeira bolha das empresas “pontocom”.

O mundo ocidental ainda se recupera, a duras penas, de uma das piores crises já vistas pela humanidade. Países europeus ainda amargam altas taxas de desemprego e endividamento e mesmo norte-americanos possuem muita lição de casa ainda por fazer. O número de empresas que fechou portas é grande, mas irrisório se comparado ao número de empresas que reduziu ou “racionalizou” sua estrutura e operação. Nesse sentido, podemos dizer que o mercado em si encolheu e talvez muito mais do ponto de vista da oferta do que da demanda. A crise demonstrou que os novos paradigmas da economia tornaram muitos negócios simplesmente inviáveis e tomando por base essa constatação, novas companhias, mais leves, dinâmicas e que possam, no jargão do segmento, realizar “pivots” com rapidez tendem a substituir muitos dos modelos que perduram por séculos.

Ainda assim, recentes reestruturações em empresas tradicionais do segmento, como o Yahoo!, que não apenas trocou sua liderança, mas aos poucos vem fechando e reduzindo escritórios, se livrando de produtos poucos rentáveis e trocando o quadro executivo, têm causado maior temor por parte de especialistas e observadores. Em suas análises, só falta lembrar que o próprio Yahoo! é um sobrevivente da primeira onda “pontocom” e que nesse sentido, talvez precise mesmo rever algumas de suas estratégias.

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Não discutir a bolha é que é o problema

Opiniões das mais diversas têm emergido no mercado. A análise feita por Rich Barton, fundador do Zillow e do Expedia, é bastante interessante. “Uma bolha não existe até que as pessoas parem de falar a respeito dela. Enquanto as pessoas estão comentando, a história mostra, são apenas preocupações”, diz ele. Barton comenta ainda que as empresas que hoje realizam IPOs são empresas que possuem clientes e consumidores reais e geram receita, ao contrário do que ocorreu em 1999. Além disso, ele lembra que na época havia uma grande promessa a respeito do verdadeiro potencial econômico da internet, o que hoje é uma realidade.

O fato é que existem bons motivos para crer na sustentabilidade do modelo de startups, talvez não no ritmo avassalador de hoje, mas de forma contínua:

  • Altas taxas de desemprego parecem encontrar uma resposta para sua rápida melhoria na formação de empresas que cresçam rapidamente e possuam modelos de negócio mais objetivos;
  • Muito do capital de risco hoje investido em startups não se trata de capital “criado”, e sim de montantes saídos de investimentos deteriorados ao longo dos últimos cinco anos, sejam eles commodities, empresas tradicionais, fundos com menor resultado a curto prazo ou mesmo títulos públicos de países desenvolvidos. A redução da posição de investidores do mercado tradicional abriu grandes e inéditas possibilidades de financiamento para o mercado de tecnologia, o que deve durar ao menos mais alguns anos;
  • A consolidação e reestruturação de antigos gigantes do segmento de tecnologia pode e deve abrir espaço para novas empresas;
  • Muitas empresas estão de fato fazendo dinheiro – e dinheiro real, não virtual;
  • Finalmente, a inserção da cultura empreendedora nas universidades deve tornar a mão-de-obra para empresas tradicionais ainda mais rara e dispendiosa, o que pode novamente beneficiar o novo modelo econômico do empreendedorismo.

Ajustes sem dúvida ocorrerão e muitas empresas, como ocorre desde o início da economia de mercado, são mais um tiro n’água do que um novo potencial. Porém, é impossível ignorar a vantagem momentânea de startups e empreendedores sobre a economia tradicional, seja em termos de custo e manutenção, produtividade ou eficiência.

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Ainda assim, há motivos para se preocupar

Mesmo que o novo modelo faça sentido, não convém ignorar o ponto de vista inverso. Algumas preocupações de especialistas em relação ao fenômeno das startups e a uma possível bolha dos negócios online fazem sentido e devem ser ouvidas, até mesmo para poupar mais trabalho no futuro. Matt Straz, CEO da Namely, enumera algumas delas:

  • Saídas de bilhões – como o Facebook, que desembolsou US$ 1 bilhão na compra do Instagram, empresas praticamente sem qualquer resultado em termos de receita, muitos outros têm feito negócios similares;
  • Ideias malucas – Straz comenta que, quando ideias malucas como queijo grelhado pela internet, hoteis para cachorro e outras começam a receber investimento, algo está errado no mercado;
  • Celebridades – como na primeira onda “pontocom”, celebridades estão se tornando comuns como financiadores e apoiadores de startups;
  • Imensas rodadas de seed – Straz demonstra preocupação em relação a grandes somas sendo levantadas por empresas em rodadas “early-stage”, o que pode gerar expectativas distorcidas em relação a resultados. De fato, já não são raras as empresas que acabam adquiridas por valores menores que aqueles que levantaram em rodadas de investimento.

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