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Startups – o novo segmento de “franquias”

Muitos falam há um ou dois anos da “hype” em torno das startups. De fato a nova onda do empreendedorismo pegou e ganhou as manchetes dos principais jornais do mundo, com ícones que vão desde o finado Steve Jobs até gurus modernos, como Alex Osterwalder e Eric Ries e os novos imperadores das mídias sociais e do e-commerce, como Mark Zuckerberg e Jeff Bezos. A cultura startup impregnou a indústria da mídia, cinematográfica, TVs e editoras em todo o mundo, e agora parece ter chegado ao nível máximo de popularização no Brasil, com toda a grande imprensa produzindo cadernos especiais sobre o assunto, governos das várias esferas anunciando programas voltados ao empreendedor de startups e até mesmo destaque em uma novela da Rede Globo.

Há mais de dez anos atrás, algo muito similar ocorria com o segmento de franquias. Para 90% da imprensa econômica na época, o mundo seria dominado por franquias de todo gênero e o investimento em qualquer uma delas era a salvação da pátria para profissionais liberais, microempresários e pessoas de meia-idade que haviam perdido seus empregos. A onda perdurou e até hoje as franquias proliferam – muitas delas não deram certo, outras despontaram, mas o fato é que o mercado se tornou mais sólido e maduro. Contudo, o “oba-oba” do primeiro momento fez muitas vítimas: pessoas seduzidas pelos ganhos “garantidos” do investimento em franquias perderam todas as suas reservas de capital, mesmo sem poder fazê-lo, e tiveram de “se virar nos 30” para reerguer suas vidas e encontrar novas atividades para desenvolver. A popularização levou o mercado a uma boa regulamentação e criou os gigantes que hoje conhecemos, mas algo de muito perigoso apareceu à época também: a desinformação.

Celebridades nos teclados

A nova onda abraçada pela mídia agora é um pouco diferente. Não se trata mais do desempregado ou do profissional liberal, ou do coitado que juntou suas reservas para sobreviver e prosperar no mercado de franquias ou como pequeno empresário. A onda agora é a das celebridades digitais – mudamos a persona do pequeno empreendedor e o tornamos alguém que busca notoriedade e fama, não sobrevivência e sustentabilidade. Não há nada de mal nisso: estamos criando uma geração com níveis de autoconfiança sem precedentes e um poder de criação e desenvolvimento sem igual. Mas há aspectos que, pelo menos, merecem um pouco mais de atenção:

  • Propostas vazias – a grande hype do empreendedorismo digital vem criando propostas vazias embaladas em espalhafatosas ações de mídia. Basta dizer que, se acessarmos ao menos metade dos endereços web de startups que “despontaram” na mídia nos anos passado e retrasado, encontraremos uma página fora do ar ou um domínio à venda. Muitas delas possuíam propostas vazias, ou seja, não eram dotadas das mínimas condições de entrega dos produtos e serviços que pretendiam ou anunciavam e, com isso, passada a onda de popularidade, caíram no ostracismo;
  • Visão simplista – abrir uma empresa não se tornou algo mais fácil. O fenômeno das startups pode ter modificado o mind-setting do empresário médio e do jovem empreendedor, mas de nada influenciou as instituições seculares que ainda detêm o controle da abertura e manutenção de empresas no Brasil. Continuamos tendo de recorrer a contadores, advogados e muitas vezes políticos, caixinhas continuam tendo de ser pagas a funcionários públicos para a liberação de alvarás e licenças e pesados impostos e taxas seguem sendo cobrados;
  • Fama e sucesso – são coisas completamente diferentes, mas a generalização do segmento de startups parece apontar para uma mesma direção quando se trata das duas definições. Há inúmeros exemplos de empresários realmente bem-sucedidos que são completamente desconhecidos, assim como há inúmeros famosos no segmento que não têm onde cair mortos;
  • Cultura do erro – um dos ditames do segmento de startups é a cultura do erro, do “tente novamente”. Tudo isso é maravilhoso, mas apesar de vivermos em uma sociedade quase que destituída de meritocracia, erros são bem menos tolerados do que se faz crer. O empresário brasileiro não é dotado de “segundas chances” para dar e vender, de modo que para continuar sob os holofotes, ainda é sempre melhor acertar de primeira, ou principalmente, esconder muito bem todas as suas patinadas.
Os gurus que não pesquisam

Postei esses dias uma imagem da nova novela da Globo, “Geração Brasil” (me recuso a colocar os números em lugar das letras). Ao mesmo tempo em que coloca o cenário de startups e empreendedorismo moderno em voga, a novela escancara um dos principais problemas da nova onda empresarial em sua versão tupiniquim: a falta de pesquisa. Na imagem, um código na tela supostamente operada por um “hacker” é nada mais nada menos do que um reles HTML sobre um “Curso de Introdução à Linguagem C”.

Não é preciso ser hacker para compreender o quão básico é o código na tela

Não é preciso ser hacker para compreender o quão básico é o código na tela

Verossimilhança é necessária na TV ou em qualquer outro lugar. Vemos séries americanas que tratam sobre política na Casa Branca, criminologia ou, também, empreendedorismo e modernidade. Talvez o traço que as una seja a pesquisa que é feita sem descanso pelos idealizadores e roteiristas dessas séries. Não se pode tratar de política nas esferas de poder norte-americanas sem conhecer minimamente o funcionamento do Legislativo e do Executivo locais, as leis vigentes e os processos de lobby e negociação de maioria nesses casos.

Contudo, a exemplo do que temos visto nos últimos 30 anos na TV brasileira, não é preciso pesquisar para produzir. O código na tela da novela da Globo pode parecer um erro idiota, mas demonstra claramente a falta de preocupação com a pesquisa e compreensão do tema a ser abordado. Uma mensagem tenebrosa para a próxima geração de empreendedores – uma vez que o próprio conceito de Lean Startup e construção de empresas com modelos como o Canvas têm, como principal atributo, a pesquisa e aprendizado a partir de experiências e testes.

What’s next

O novo empreendedorismo irá sobreviver e prosperar, mas a exemplo do que ocorreu com o segmento de franquias, vendas diretas antes dele e algumas outras ondas abraçadas pela mídia desde meados do século XX, teremos muitas vítimas do simplismo e da criação das receitas de bolo do sucesso. Nesse meio tempo, talvez cancelar a TV a cabo e assinar um Netflix talvez seja o mais indicado para se poupar da inundação de generalismos e caricaturas que teremos nos próximos meses.

Um comentário

  1. Sandro says:

    Muito bom seu artigo, colocando o pingo nos “is”..

    Separa perfeitamente o estrelismo da realidade nua e crua…

    Parabéns