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Startups e o governo – um diálogo impossível

Algumas pessoas comentaram ultimamente a respeito da possibilidade de realizar uma análise aqui sobre as conturbadas e contraditórias iniciativas governamentais em apoiar ou fomentar o segmento de startups. Antes de mais nada, para aqueles que têm boa leitura na língua inglesa, recomendo o artigo “Why Governments Don’t Get Startups“, de Steve Blank. O texto compartilha de algumas das opiniões que tenho em relação às possibilidades (ou não) de diálogo e construção de programas que aproximem governos de startups, e é um bom ponto de partida sobre o assunto.

Para início de conversa, e recobrando todo o histórico de projetos como o Start-UP Brasil e o Seed, em Minas Gerais, é preciso notar algo de muito importante, colocado com maestria no artigo do incomparável Steve Blank: governos simplesmente não entendem o que é uma startup. A visão simplista do programa brasileiro delimitou a iniciativa, já em sua concepção, ao segmento de tecnologia. Infelizmente, isso não define uma startup – procurem grandes sucessos mundiais, como Dollar Shave Club ou Sugru, e imediatamente é possível ver que o sentido de inovação presente na filosofia de negócios que o termo startup proporciona não está limitado ao segmento de tecnologia ou serviços online. A partir desse ponto, é simplesmente complicado demais para os padrões governamentais – seria mesmo o MCT o órgão adequado para conduzir um programa dessa natureza? Se a questão é financiamento, por que não envolver entidades relacionadas ao crédito? Por outro lado, se a questão é competitividade, por que não envolver o MDIC?

Os argumentos podem se multiplicar e logo teremos dezenas de ministérios, secretarias e autarquias que sequer dialogam entre si envolvidos em um programa fadado ao esquecimento. A rápida ação, que é uma característica de nosso segmento, logo se torna um processo repleto de pré-requisitos, burocracias escondidas e regras que mudam conforme os interesses do Executivo. Toda uma gama de “facilitadores” passa a surgir e um setor que deveria agir rapidamente em seu ciclo de desenvolvimento se vê mais preocupado em atender a requisitos e normas do que em criar e desenvolver sua missão.

O Start-UP Brasil é uma vitória ou uma derrota? Qualquer resposta direta é simplista, mas vamos analisar alguns dos aspectos que cercam esse e outros programas.

Qualitativo versus quantitativo

Aqui surge o primeiro problema de qualquer programa governamental. O que é uma vitória quando falamos de startups? Todos sabemos que o risco é imenso, que as chances de que uma empresa não vingue são, de cara, muito maiores do que as chances da mesma de atingir o sucesso, e também sabemos que não existe um estratagema único e uniforme, uma receita de bolo do sucesso. Falamos então, quando nos referimos a startups, de resultados qualitativos. Um governo, por outro lado, somente trabalha com dados quantitativos.

A grande vitória, para os gestores e idealizados do programa Start-UP Brasil é o número de empresas apoiadas pelo programa. Onde estão, no entanto, os dados objetivos sobre o número de empresas que sobreviveram a 1 ou 2 anos de mercado? E quanto ao número de patentes registradas? Quais dessas empresas entregaram de forma objetiva os produtos e serviços que foram propostos? Qual a influência do programa no valuation dessas empresas e como tais beneficiados se diferenciam de startups que não participaram do programa?

Tudo isso não existe, não está claro e não é divulgado. A razão é muito simples: não há acompanhamento nesse sentido. Críticas veladas e até escancaradas são dirigidas a um dos pais do programa, o colega Felipe Matos. Críticas no mínimo injustas. Como em qualquer realização governamental, estamos culpando ou atacando a figura pública à frente do programa, nos esquecendo de que existe, por detrás dele, toda uma multidão de burocratas, cujas funções anteriormente compreendiam o recebimento e processamento de formulários perniciosos e burros de solicitação de verba para pesquisa.

Não estou dizendo que o programa deu certo ou errado – apenas questionando “para quê” ele deu certo ou errado. A maior contribuição do Start-UP Brasil, provavelmente, foi a popularização e divulgação do movimento e a difusão de alguns dos conhecimentos propagados pelo setor. Já em termos de “investimento”, como as autoridades envolvidas gostam de apregoar, o desempenho foi até agora ridículo – a distribuição de algumas dezenas de milhões, em termos federais, é simplesmente um montante próximo de nulo – há vereadores sob investigação que desviaram mais verba de prefeituras de médio porte.

Startups não sabem o que pedir

Sim, nossas startups não sabem o que devem pedir a autoridades e governos. Como todos os adeptos do “bem-bom” do empreendedorismo digital, pedem dinheiro. Desculpe, o governo não tem como função social empatar grana em projetos cuja possibilidade de fracasso excede os 75%. É simplesmente usar dinheiro público na roleta. Quem assume riscos em troca de possibilidades de lucro é a iniciativa privada. Um governo não pode e não deve aplicar recursos de seu tesouro em investimento de alto risco, mesmo que o retorno seja promissor, se assim fosse, teríamos o Tesouro Nacional como principal ator do mercado de derivativos, onde os lucros e riscos são estrondosos. Governos devem aplicar sua receita em alternativas de ganho e rendimento constantes e sustentáveis, de preferência de alto grau de conservadorismo e retorno praticamente garantido.

Então o que deveríamos pedir?

As possibilidades são infindáveis. Se queremos suporte e apoio, estamos buscando as coisas erradas. O programa mineiro do SEED, ao contrário da versão federal, oferecia alguns ‘features’ mais razoáveis em seu apoio ao segmento, mas como toda iniciativa dessa natureza, acabou caindo na malha fina da reavaliação política de programas de gestões passadas. Vamos voltar à dupla PROBLEMA vs SOLUÇÃO.

Quais os problemas enfrentados por uma startup que poderiam ser resolvidos pela esfera governamental? Desculpe de novo, mas “falta de grana” não é um problema. Estamos falando de um modelo que sequer saiu do papel, ou ainda dá seus primeiros passos, e portanto pode se adequar ou reformular suas bases em função do volume de capital que de fato possa levantar. Os problemas enfrentados aqui devem ser comuns a toda e qualquer startup inserida em um mesmo ecossistema. No Brasil, eles podem se resumir nos seguintes itens:

  • Dificuldade de abertura e constituição de empresas;
  • Carga de impostos excessiva e agenda tributária complexa;
  • Falta de regulamentação em relação ao perfil societário de empresas inovadoras;
  • Complexidade do processo trabalhista e inexistência de objetividade em questões como o trabalho remoto e realizado por freelancers;
  • Processo de importação de tecnologia caro, nebuloso e baseado em exceções;
  • Complexidade e obsolescência do conceito de empresa e seu entorno jurídico.
Conflito de interesses

Pare e pense um pouco antes de seguir adiante: um governo tem a função de ser burocrático e demorado, por mais “lean” que possa ser. Essa não é uma prerrogativa do modelo governamental brasileiro, embora seja mais nítida por aqui. Um governo precisa analisar cuidadosamente todo e qualquer investimento, gasto ou decisão. Há leis de responsabilidade e conduta, órgãos interdependentes que precisam estar em comum acordo, rotinas de fiscalização que, ainda mais por aqui, onde todos são “espertos”, são de suma importância e, ao final de tudo, temos uma questão cultural fortíssima.

Qual? Bem, o perfil médio do funcionário público, seja ele um concursado, um comissionado ou uma autoridade indicada para um cargo de confiança, não é o perfil de um empreendedor. Alguém que estudou para passar em um concurso que garantirá salário e estabilidade para o resto da vida não consegue compreender o tipo de rotina e filosofia que uma startup ou qualquer outro empreendimento possui.

Infelizmente, é dessas pessoas que estamos dependendo quando esperamos a concretização de um programa governamental de apoio ou fomento. Enquanto mantivermos o mesmo discurso e diretrizes em nossos pleitos como empreendedores, nada de realmente prático virá à tona. E, por sinal, embora essa seja uma opinião pessoal, esperar dinheiro a título de perdido do governo para bancar seu suposto negócio é no mínimo aviltante – tecnicamente, modelos tradicionais de negócio, como salões de beleza, lanchonetes e lojinhas de R$ 1,00 também deveriam, então, estar recebendo dinheiro sem caráter de empréstimo.

Alguém terá de fazer política

Podem chorar as pitangas. Podem meter o pau no Felipe Matos e em seu sucessor. O fato é que, quando a questão é governamental, alguém precisa assumir o ônus do lobby. Papo moderninho de modelo de negócio, escalabilidade e tudo mais – nada disso faz o menor sentido para quem, no governo, está disposto a abraçar programas do gênero. Apelo na imprensa, entre os eleitores, plataforma de reeleição, geração de empregos na esfera pública… isso é o que importa, ainda que não levemos em conta o quanto de grana geralmente precisa “sobrar” em programas governamentais em nosso país.

Enquanto o diálogo nesses termos – os do poder público – for impossível para startups, também será impossível construir programas que realmente tragam uma influência abrangente para a cadeia toda.

Um comentário

  1. andre p c branco says:

    Impecável