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Pronto! Já pode desligar o módulo empreendedor!

Estranho um título como esse em um blog sobre empreendedorismo, startups e afins, não é mesmo? A verdade é que faz todo o sentido. Não irei perder meu tempo realizando pesquisas enganadoras ou simplesmente inventando números absurdos – como fazem nossos amigos do ‘empreendedorismo digital’. O módulo empreendedor é algo que surgiu no Brasil nos últimos cinco anos.

Não, não tem nada a ver com um maior número de empresas sendo criadas ou o mercado digital. Questão de discurso mesmo. Entretanto, tem absolutamente tudo a ver com startups, empreendedorismo e a chuva de eventos e encontros que seguiram a ascensão dessas duas palavrinhas. O módulo empreendedor pode e deve ser desligado – atualmente ele leva mais gente à ruína do que ao sucesso.

Modificação semântica

Os anos de investimento na banalização do termo empreendedor criaram um “módulo empreendedor”. A semântica da palavra mudou: hoje quando se fala “empreendedor”, imagina-se automaticamente um moleque de 20 e poucos anos que não está lá muito afim de trabalhar, tem sonhos de grandeza e acha que a vida inteira se resume a aplicativos para smartphone ou conteúdo marqueteiro de quinta categoria. Mas antes de discursar mais, que tal repassarmos a definição do módulo empreendedor? Ao ligar esse módulo, você:

  • Passa a cair em qualquer esquema ridículo para ficar rico do dia para a noite, desde os bons e velhos esquemas-pirâmide até as fórmulas sensacionais de “demita seu chefe”.
  • Você deixa de ler livros com conteúdo e apenas vai a livrarias para comprar livretos de autoajuda.
  • Todas as suas ideias, mesmo as mais idiotas, são geniais e podem ser “roubadas” por qualquer um.
  • Passa a agir com um empresário (ao menos dentro da sua concepção do que é um empresário) em todo lugar que vai.
  • Frequenta eventos quaisquer pagando 10 reais ou mais por uma Heineken long-neck, desde que eles tenham “startup” no título.
  • Não considera abrir ou montar nada que exija apenas TRABALHO. Afinal, empreendedor precisa de “investimento”.
  • Nunca fala coisas que todo empresário de verdade diz, como “o mercado está uma merda”, “meu produto é do caralho” ou “esse vendedor é um filho da puta”. O que vale é o uso de palavras difíceis ou modismos em inglês, e vocábulos como “bacana” e “caraca” no lugar de palavrões de gente grande.

É injusto afirmar que todos que estão nesse meio ainda têm o módulo empreendedor ligado – alguns já desligaram a chave e, com algum trabalho, estão prosperando. Mas a maioria continua a gasta o salário (ou mais comumente, a mesada) em livros de autoajuda idênticos e eventos com novas celebridades, muitas delas donas de empresas que ainda não faturaram o suficiente para bancar um maço de Marlboro.

Aperte o “OFF”

Falta você ainda. Apertar o OFF é muito fácil. Separamos neste artigo um passo a passo para você, que ainda tem certeza de que o empreendedorismo é apenas uma forma fácil de ganhar dinheiro na internet com ebooks mal diagramados ou aplicativos de balada e recomendações, deixe o módulo empreendedor e comece a criar negócios, lucrar e construir uma carreira:

  1. Pare de ter ideias “geniais” – tenha uma ideia boa o suficiente para ser executada e siga adiante.
  2. Só busque investimento depois que tiver algo na mão – esperar por esmolas para iniciar uma empresa não é um bom primeiro passo.
  3. Se na sua “ideia” você apenas ‘coordena’ e quem trabalha são os outros, volte ao passo 1.
  4. Comece a contratar gente apenas quando você conseguir, sozinho, pagar suas próprias contas.
  5. Seja realista – sua ferramenta de “repostar” nas redes sociais não irá curar o câncer, ou eliminar o trabalho infantil, ou erradicar o tráfico de escravas brancas.
  6. Use a palavra empreendedor para outras pessoas, não no seu perfil do LinkedIn.
  7. Vá em eventos nos quais seja possível VENDER seu produto e sua marca, e não COMPRAR kits ou fórmulas de gurus.
  8. Se tudo isso é trabalho demais, compre o Jornal dos Concursos ou a Folha Dirigida – você será mais feliz como fiscal do INSS ou escriturário na CAIXA.

 

 



4 Comentários

  1. …E mais uma vez, Carlos Matos reduz a sulfato de pó-de-bosta os delírios de grandeza e o teatrinho do sucesso da turminha descolada…

  2. Alexandre Novakoski says:

    Você está certo quando diz que não existe milagre do dia para a noite e o que vemos hoje é muita propaganda. Mas talvez não esteja tudo perdido. Acredito que vivemos um momento e de cada momento, mesmo este, aprendemos, evoluímos, afinamos nossos instrumentos. Não existe receita de bolo instantâneo, tudo é processo, é orgânico e é sistêmico, como a natureza é sistêmica. Todos podemos estar certos e o mesmo tempo errados. O importante é continuar buscando o que faz o seu coração bater mais forte. O que te faz sonhar. Estar errado faz parte da evolução. A resposta para tudo está dentro de cada um, não precisamos de gurus ou críticos, mas devemos ouvi-los. Não devemos nos fechar para tudo e para todos. Para encontrar temos que comparar o que nos dizem com o que já experimentamos e acreditamos. Todos precisamos de ajuda, e às vezes os bons livros de espiritualidade, filosofia e autoajuda podem ser úteis. Não descarte nada, mas escolha o que você quer para este momento.

  3. Boa, Carlos. Essa tb tava na minha garganta há tempos. Abs