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Por que noticiar fracassos?

Uma recente discussão com um colega do setor colocou em pauta a necessidade de explicações. Como todos que leem sabem, entre outros sou jornalista. Daqueles que cursaram a universidade, no duro. Segundo boa parte das pessoas, jornalistas são seres sanguinários que somente buscam o que há de pior no mundo, pois vende. Bem, tirando o fato de que vende mesmo, há um pouco mais por detrás disso, algo que os olhos desavisados e simplistas não podem ver. A questão em nosso segmento, repleto e recheado de maravilhosos e quase mágicos cases de sucesso, é que alguns colegas da imprensa “teimam” em só ver o lado negativo, correto?

Na verdade, nem perto. Se qualquer um buscar notícias sob a retranca “startups” no Google ou em qualquer outro lugar, verá certamente mais de 90% de matérias de super-mega-investimentos, startups que foram criadas do dia para noite, empreendedores que são quase heróis Marvel e sucesso, e mais sucesso. Salpicados aqui e ali, estão os casos daquelas empresas que não deram tão certo assim, ou mesmo daquelas que deram com os burros n’água feio.

Não obstante, as acusações seguem – somos pessimistas e “quanto melhor pior”. Bem, os argumentos para sustentar a hipótese de que deveríamos “dar mais” casos de sucesso são alguns:

  • Não há imparcialidade, por isso aparecem fracassos;
  • Esse tipo de conduta destrói o segmento, desencorajando os empreendedores;
  • A imprensa é uma das causadoras do “medo de consumir” e falta de investimento pelos quais o país passa.

Bem fundamentado, não é verdade? Entretanto, cada uma dessas premissas é falsa, e não sob a óptica da imprensa, mas sob a própria óptica do empreendedorismo, como veremos a seguir.

A imparcialidade

Adoro quando gente que lê jornais esporadicamente fala em imparcialidade. Segundo dados polvilhados pelo próprio segmento de startups, aqui e fora do Brasil, mais de 75% das empresas do segmento não sobrevivem sequer a 1 ou 2 anos de atividades. Bem, tendo isso em vista, vale dizer que deveríamos ver pelo menos 3 vezes mais matérias falando a respeito de fracassos do que de sucessos antes de presenciar um desequilíbrio. Mas será que é isso o que acontece?

De acordo com essa mentalidade, então, escrever matérias “negativas” é “parcial”. Na verdade, não há matérias negativas ou positivas – há matérias e artigos bons e ruins. Negativo ou positivo é mensuração de valor atribuída por assessorias de imprensa e comunicação, essas sim parciais, uma vez que trabalham legitimamente em nome e em defesa de seus clientes. Jornais ou veículos que somente dão matérias e conteúdo sobre sucessos ou apenas sobre fracassos não são negativos ou positivos, mas sim ruins, nos dois casos.

A destruição

“A publicação de casos de fracasso ou falência destrói setores, desencorajando empreendedores”. O mais engraçado dessa afirmação é sua total falta de senso de oportunidade. O empreendedor brasileiro, sempre farejando os tais “cases de sucesso”, tende a investir em batalhões e bandos em um mesmo setor. O problema é que há algo chamado saturação de mercado – a imprensa muitas vezes percebe isso.

Por outro lado, a quebra ou saída de players de um mercado, pelo menos por parte de um empreendedor razoavelmente competente, é vista como uma janela de oportunidade para investimento. Parece óbvio, mas muita gente não vê – se 20 empresas atuam em um mercado que cresce, e duas delas quebram, há espaço para a expansão das restantes, ou mesmo para a entrada de um novo player. No caso de um mercado em crise, como o nosso, a quebra de algumas empresas é também oportunidade para a recuperação das sobreviventes. Não por acaso, investidores aplicam seu capital em mercados nos quais a rotatividade de empresas é grande, como o e-commerce. Todos os meses, centenas de novos e-commerce abrem as “portas”, enquanto centenas de outros vão à bancarrota ou fecham.

Tudo é oportunidade, principalmente quando seu concorrente ou um player do mercado no qual você irá investir sai de cena. E nós jornalistas é que somos negativistas…

A economia não é nada, a imprensa é tudo

Culpar a imprensa pela queda no consumo e nos investimentos no país é tão esplendorosamente ridículo quanto culpar clientes pela falência de uma empresa que vende produtos vagabundos e ruins. Em primeiro lugar, “medo de consumir” é a piada de 2015. Estamos com índices de inflação e desemprego que não víamos há mais de 10 anos; importamos mais do nunca, e agora pagamos um dólar 30-40% mais caro do que há dois anos; o comércio e o varejo fecha as portas sistematicamente em todo o país, por falta de clientes e, finalmente, subsídios do próprio governo que sustentavam uma economia já trôpega foram pro vinagre. No entanto, estamos em crise porque a imprensa dá notícias ruins.

O mesmo acontece com o fracasso. Construir reportagens e matérias sobre empresas que faliram ou foram derrubadas pelas dificuldades é algo que leva a novas empresas sendo quebradas, segundo a teoria. Infelizmente, só aprendemos aquilo que queremos. Ler sobre empresas que deram errado é algo que nos dá a oportunidade de aprender e evitar os erros sem ter de passar por eles. Mas a maravilhosa teoria do “sucesso” é melhor, porque faz com que quebremos a cara antes para aprender… só que não.

Mas afinal, pra que serve a imprensa?

De acordo com muitos, a imprensa é aquela que tem o papel de “gerar questionamentos”. Estranho, por que se concordamos com tudo que está aí, não contradizemos nada e trabalhamos sempre com as teorias “oficiais”, que tipo de questionamento estamos gerando? A imprensa não serve apenas para falar mal ou bem – quem faz essa leitura precisa, na verdade, ler mais, ou simplesmente tomar vergonha na cara, especialmente no caso de políticos.

Vou colocar em termos mais fáceis de entender: um jornalista tem a função de DUVIDAR. Quando todo mundo acha coisa de outro mundo, é maravilhoso e perfeito, é função do jornalista questionar, perguntar, provocar e estar alerta para contradições.

Sou jornalista e em resposta ao “enxergar” o bom, digo apenas o seguinte:

  • O Brasil é um país com mais vontade de empreender, mas temos dificuldades que vão desde a educação até a própria gestão, e fazer de conta que não vimos significa trabalhar com riscos maiores que o necessário.
  • Temos excelentes empreendedores – sempre tivemos. Temos empreendedores sofríveis – sempre tivemos. Temos certeza de que criar empresas envolve necessariamente dinheiro dos outros – nunca tivemos. Temos empresas minguando e perdendo clientes – nem sempre tivemos.
  • Não há “geração Y”, “geração X” ou qualquer outra geração. Nossos empreendedores de hoje não são melhores ou piores que os de antigamente e vice-versa.
  • O segmento de startups, particularmente falando, está tendendo para uma situação de maior sustentabilidade e menos oba-oba.

Contudo, meus amigos, há sempre o lado não tão bom assim:

  • Falávamos de 75% de empresas que não sobrevivem nos tempos de bonança da economia – e agora, às quantas anda essa estatística?
  • A imprensa só noticia casos de sucesso, mostrando o como é maravilhoso empreender. Se der errado, tudo bem… mas será que são todos os empreendedores que podem se dar ao luxo de errar no Brasil? Estamos sendo realistas com as camadas mais baixas da sociedade, onde o erro significa passar necessidade?
  • Só cases de sucesso, em todo lugar. O mundo do empreendedorismo é maravilhoso… mas então, por que todos ainda têm concursos públicos como sonho dourado no país?

A imprensa não é culpada nem inocente – ela é apenas a imprensa, ponto. O culpado é aquele que cega e faz cegar, o que finge não ouvir e não conta aos demais, o que despreza o fracasso de outros, mas quer mão na cabeça quando chega o seu. E finalmente – o mundo feito só de sucesso e facilidades não rende merda nenhuma em termos de história – ou alguém iria ver um filme no qual o herói passa duas horas seguidas sem correr perigo uma única vez?

Enfim. Sucesso, fracasso… não importa. O que importa é ter uma história boa para contar.

2 Comentários

  1. Excelente reflexão, Carlos. Acho que nós, jornalistas inseridos no cenário de empreendedorismo e startups, temos um papel super importante para tentar mudar essa cultura no Brasil, e ainda desmistificar esse ponto que você abordou tão bem sobre nossa relação com o fracasso.

  2. Fernanda says:

    Eu sou o exemplo vivo de que se deveria SIM noticiar evidenciar e colocar pisca-piscas sobre fracassos.
    O fracasso pode ser um bom negocio, haja visto o site reclame aqui!
    PS: Queria comentar mais… enfim… =/