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O mito da “dedicação total” no empreendedorismo

A maioria avassaladora dos investidores e especialistas em empreendedorismo e startups são unânimes em dizer: o empreendedor deve se dedicar inteiramente ao seu projeto. Será mesmo? Vamos recobrar grandes nomes da história, tanto no Brasil quanto no exterior. Se avaliarmos suas histórias de vida com cuidado, veremos que invariavelmente todos eles estavam atuando em mais de uma coisa concomitantemente. Em alguns casos, mantinham atividades para pagar suas contas, enquanto arriscavam parte de seus ganhos em outras empreitadas; em outras situações, trabalhavam como funcionários nos mercados nos quais pretendiam empreender, como forma de ganhar conhecimento ao mesmo tempo em que desenvolviam seus próprios negócios.

Agora voltemos à realidade do Brasil, especialmente nos dias de hoje. É simplesmente irreal querer que um empreendedor largue tudo mais o que está fazendo para se dedicar a um projeto que pode ou não render frutos. A receita para se dedicar mais ao projeto? Durma menos, sacrifique suas férias, otimize seu tempo… enfim, se vire. Grandes empreendedores da história puderam conciliar carreiras inteiras com os primeiros passos de seus negócios, e não raro, atuavam também como autores, professores e até mesmo funcionários públicos.

É claro que investidores querem que você se dedique integralmente a um projeto. Como você, eles querem que seu negócio dê certo, para que eles possam auferir lucros a partir de sua venda. Contudo, no caso de fracasso, o que eles perdem é parte de seu capital, cientes do risco. Para você, a perda pode representar a ruína completa, a impossibilidade de arcar com seu estilo de vida e, muitas vezes, um duro e infeliz regresso ao mercado de trabalho – por necessidade, não por vontade.

O empreendedorismo não é uma carreira, embora eu esteja certo de que não tardará muito até termos um curso de graduação na área, com diploma emitido de “empreendedor”. O empreendedorismo é uma atitude, um estado… ele só serve a um propósito muito específico e dura até o momento em que o empreendimento é colocado em prática. Depois disso, você é um empresário. Antes, caso tenha apostado todas as suas fichas no mesmo lugar, um desempregado.

Tenha alternativas – isso também é empreendedorismo

É falso e hipócrita dizer que aqueles que se resguardam com alternativas “não acreditam” em seus negócios ou empreitadas. Se assim fosse, investidores também estariam colocando todo seu capital em uma mesma empresa ou somente no mercado de startups. Por que eles “diversificam” e você tem que apostar “all-in”?

Um bom empreendedor sempre possui alternativas – de modelo de negócio, de geração de receita, de canais de venda, de financiamento… e também alternativas para o caso de tudo mais dar errado. Cobrir o próprio rabo é um reflexo de sabedoria, não de falta de dedicação ou de fé. Por essa simples razão, empresas e startups de sócio costumam contar com mais de um sócio – como todo mundo tem que comer, fundadores conciliam seu tempo e obrigações, de modo a dispor de recursos, conjuntamente, para que possam desenvolver seu plano.

Certamente que em algumas situações, será possível ou valerá o risco o fato de você jogar tudo para o ar e correr atrás de seu projeto. Contudo, quem tem que avaliar qual o momento certo para fazê-lo é você mesmo, e não especialistas de mercado, que aliás, diga-se de passagem, possuem dezenas de alternativas para continuarem a ganhar o seu pão de cada dia.

Sustentável ou sustentado?

Outra parte do mito se abre quando avaliamos alguns dos recursos que são concedidos a empreendedores e startupeiros em geral. Teoricamente, parte desses recursos são destinados a dar “amparo” ao empreendedor enquanto ele desenvolve o projeto. Peraí? Você quer criar um negócio sustentável que mal lhe sustenta? E outra: quem são eles para avaliar suas necessidades conforme seu padrão de vida? Os empreendedores mais jovens que me desculpem, mas quem não mora com os pais não pode se dar ao luxo de botar seu aluguel ou sua compra do mês na roleta.

Um negócio sustentável é aquele capaz de manter as próprias pessoas que dele vivem – proprietários e fundadores, colaboradores e mesmo fornecedores. Criar um modelo de negócio que tem início pautado em recursos que precisam ser injetados para manter a própria alimentação e moradia de seus fundadores raramente será promissor no campo real – talvez tenha apelo especulativo, mas quem está fazendo investimentos de risco não é você.

Finalmente, querer extrair sustento de seu próprio empreendimento é bastante diferente de “ficar milionário”. O empreendedorismo pode facilmente conciliar negócios que tenham um propósito com negócios que visem o sustento de seus próprios idealizadores. No fim de tudo, o mito da “dedicação” acaba criando empreendedores dispostos a trabalhar em troca de vento, e isso certamente tem enorme influência na existência de modelos de startups que não geram receita – o que, por mais paradoxal que possa parecer, também é objeto de críticas dos vários especialistas do segmento.

 

 



3 Comentários

  1. João Victor Gelio says:

    Excelente post!
    Você deve se dedicar a startup sim, mas nem sempre é necessário abandonar seu emprego e apostar todas as fichas logo de cara. O mais sensato de se fazer é crescer o máximo possível da sua startup sem investimento. Faça isso até o ponto que esteja inviável trabalhar e conciliar com suas atividades na startup. Quando isso acontecer significa na maioria dos casos que sua startup está começando a dar certo e aí sim, é o momento perfeito para encontrar um investidor, tenho certeza que se você deixou seu emprego porque seu negócio está dando certo, está muito mais provável de você receber injeção de capital de um investidor.

  2. Manoel Frasães says:

    Concordo com o ponto de vista. É bem interessante uma visão menos romântica da coisa toda. Romantismo quando você tem sustento e educação de filhos e um monte de outras coisas dependentes de você não é mesmo a melhor opção.
    O principal é saber casar a otimização de tempo com divisão clara de atividades entre os sócios de forma que o desenvolvimento da solução seja acelerado.

  3. ola, nao li tudo mas de cara ja vi a necessidade de pontuar algumas coisas.

    Vamos la … temos 2 perfis distintos .. o perfil do empreendedor que cria e mantem o negocio, e o investidor que injeta dinheiro e recebe os juros.

    Pois bem, o ativo do investidor é o dinheiro .. e ele deve colocar mais dinheiro onde está gerando mais lucro para que otimize os seus investimentos.

    Já o que acontece com o empreendedor é um pouco diferente. Se ele for iniciante deve focar seus esforços em um empreendimento. Se ele escolher o empreendimento que tem maior chance de sucesso ele, principalmente em decada de crises, ele terá maior chance de sucesso. Já se o empreendedor for experiente ele pode diversificar os negocios em que ele atua desde que saiba delegar aos gerentes de cada negocio (empreendedores) a amarga tarefa da gestao, ficando apenas com o monitoramento do negocio ou a gestao estrategia, e fica totalmente livre do operacional.

    Ou seja, é semelhante ao que acontece na cadeia de fast food e varejo, onde em cada unidade do negocio você tem gerentes operacionais que sao os empreendedores do negocio, e o empreendedor proprietario lida apenas com os gerentes subordinados. Mas, observe que estes mercados ja estao consolidados. Basta executar bem os 5Ps do marketing e se tem o sucesso, bem diferente de uma startup que está descobrindo um novo mercado ou nova forma de atuar no mercado.

    Pois bem .. se vai diversificar, saiba bem a quem vai delegar a gestao do negocio.