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O melhor investimento do mundo

Muito se fala hoje em dia nas tais relações “ganha-ganha” e em ficar rico do dia para a noite vendendo “vendas”, que é basicamente o que 97,6% dos produtos digitais acabam fazendo. Esses conceitos não têm absolutamente nada de novo, como venho repetindo há algum tempo. Segmentos como as vendas de porta a porta e, na margem da lei, os esquemas pirâmide maravilhosos dos anos 1990 e 2000, já apregoavam esse tipo de mágica. Hotmarts da vida à parte, a ideia torpe de que é preciso “investir” para sair da crise remete imediatamente a novos gastos em prol do futuro – mas o contrassenso permanece. Se o cara está com um pé na cova, de onde irá tirar dinheiro para investir em técnicas e estratagemas maravilhosos que prometem a riqueza e o sucesso?

O brasileiro está deixando escapar uma possibilidade de um melhor investimento com a qual americanos já convivem desde a década de 1980 e europeus tiveram de passar anos de crise até se dar conta. O melhor investimento do mundo não é uma empresa, uma franquia, uma startup ou mesmo o mercado de derivativos – é o seu trabalho.

Senta que lá vem história

Vou contar algumas histórias antes de seguirmos adiante.

Leandro tem um bar. A escassez de clientes por conta do inverno e também a redução da renda de seu público fez com que ele acumulasse, até agora, três meses de prejuízos. Seus gastos na reforma do bar até agora não se pagaram e as dívidas só aumentam. Um dia, Márcio foi até o bar de Leandro tomar uma cerveja. Indo ao banheiro, reparou que um forno de pizza ocioso estava inutilizado, na parte de trás do bar. Márcio é pizzaiolo e foi demitido faz dois meses. Após conversar com Leandro, os dois chegaram a um consenso – Márcio limpou o forno e passou a fazer pizzas para entrega nas imediações e, em troca, Leandro cedeu uma participação de 5% no bar, mais 15% do valor das pizzas vendidas. Leandro reverteu os prejuízos e consegue vender a pizza mais barata do bairro, e Márcio conseguiu um “emprego” e de cara um novo negócio para cuidar, empregando também seu primo, um motoqueiro que estava sem trabalhar.

Jefferson tinha sido demitido em um dos muitos cortes de montadoras. Trabalhava como soldador. Em seu bairro, a serralheria de Jonas seguia relativamente estável, mas ele teve de se desfazer de seu ajudante, por conta dos custos trabalhistas. Contudo, os clientes de Jonas não diminuíram e as entregas começaram a atrasar. Sabendo de Jefferson, Jonas resolveu procurá-lo e pedir ajuda. Jefferson agora trabalha por projeto, recebendo 10% de cada trabalho que entrega, livre de impostos, enquanto procura outra ocupação como soldador.

Airton resolveu fechar sua loja. Apesar do imóvel ser próprio, a crise pegou forte e ele achou melhor fechar as portas antes de começar a registrar prejuízos ou contrair empréstimos. Duas quadras adiante, Felício procurava um novo imóvel – o atual ficou caro demais e ele precisa de um ponto razoavelmente montado. Contudo, proprietários e imobiliárias aparentemente ainda acham que estamos nos tempos de bonança, e imóveis mais baratos só a quilômetros de distância, longe de sua clientela. Um amigo em comum colocou Airton e Felício em contato. Agora Felício, que bancava impensáveis R$ 8 mil por mês em aluguel e ponto, paga apenas R$ 4 mil para Airton, que ocupou seu imóvel e garantiu alguma renda enquanto pensa em outros negócios para tocar adiante.

Todas essas histórias têm duas coisas em comum:

  1. Nenhuma delas realmente ocorreu, apesar de serem perfeitamente plausíveis;
  2. Leandro, Márcio, Jefferson, Jonas, Airton e Felício conseguiram gerar renda ou reduzir custos, e nenhum deles teve de investir um único centavo, a não ser seu próprio trabalho.
Dois lados, uma solução e nenhuma ação

É essa a matemática do novo empreendedorismo. Temos dívidas ou não dispomos de capital para colocar nossos planos em prática? Pedimos dinheiro a um investidor. Não possuímos a capacitação ou a mão-de-obra que o trabalho exige? Contratamos alguém ou até mesmo um fornecedor. Inventar empresas aparentemente se tornou o melhor investimento do mundo, porém em 90% dos casos, ninguém que tem juízo coloca um centavo.

Sem perceber, nossas ações para resolver os problemas de nossos empreendimentos então gerando maiores custos ou alienando nosso próprio controle sobre nossos negócios. O milagre do investimento anjo – que como programas sociais brasileiros é recebido pelo mercado como uma “dádiva” vinda de alguém que somente quer “fazer o bem” com seu dinheiro – está tirando o foco daquilo que deveria ser prioridade para manter nossas empresas rodando.

O trabalho não é visto como investimento no Brasil – contar com a mão-de-obra ou know-how de um terceiro a título de investimento é até mesmo visto com desconfiança pela maioria das empresas. Nossa soberba fez com que engenheiros ou advogados que se prestam a trabalhar por alguns trocados em um negócio sejam vistos como profissionais “meia-boca” ou não sejam dignos de confiança. Um psicólogo que quer trabalhar em sua padaria, em troca de um salário pífio e de um bom aprendizado de confeitaria é louco. Contudo, alguém que ingressa em uma startup ou faz uma das dúzias de cursos motivacionais sobre como ganhar dinheiro é visto como empreendedor.

Temos dois lados: um quer recuperar-se ou sobreviver com um negócio, outro precisa de trabalho e perspectivas. Temos uma solução: unir ambos e produzir negócios mais eficientes em termos de custo e renda ou aprendizado para quem se presta a ajudar esses negócios, contornando a legislação trabalhista imbecil de nosso país de forma legal e multiplicando ganhos de ambas as partes. Não temos ação alguma: fazer um concurso público ou pedir dinheiro fácil com uma apresentação mal diagramada no Powerpoint parece mais inteligente e melhor investimento.

E ainda tiramos barato da Grécia…

2 Comentários

  1. Marcus says:

    Direto ao ponto. Sem rodeios o que precisa ser dito. Muito bom.

  2. Hudson says:

    Sensacional de artigo e mostra realmente o espírito empreendedor. Algo simples a acessível a todos.