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Melhores condições para o empreendedor brasileiro

Não estamos mal – verdade. Sou tido como um pessimista, embora aqueles que me conheçam pessoalmente costumam ter exatamente a impressão oposta. O fato é que o empreendedor médio brasileiro não vai tão mal assim, a despeito das ditas “condições para o empreendedorismo”. Temos que concordar: carga tributária alta, falta de mão-de-obra qualificada, importação quase inexequível para alguns segmentos, legislação truncada e obsoleta, burocracia e muitas árvores ainda colocadas no chão para manter a burrice, morosidade e semianalfabetismo dos cartórios brasileiros. Com tudo isso, temos empreendedores realmente avançando.

Mas então, o que está realmente faltando? A verdade é que não falta nada.

Claro que é legítimo qualquer movimento em buscas de “melhores condições” para o empresariado. Isso ocorre no mundo inteiro e também aqui, e alguns sucessos localizados aqui e ali mostram que vale a pena martelar a canela do governo até que alguma coisa caia na mão. Entretanto, as reclamações do empreendedor brasileiro, embora justas em algumas situações, não são um entrave tão grande quanto muitos querem fazer crer.

Ao redor do mundo

O empreendedor brasileiro adora falar do mundo injusto e difícil do Brasil quando fracassa. O mais engraçado é que, até que esse momento chegue, parece querer defender com unhas e dentes sua pátria amada e confusa. Por mais intrincado que o sistema brasileiro possa ser para o empresário, o fato é que nossos romantismo torna o mundo lá fora melhor e mais suave do que ele realmente se apresenta – quer alguns exemplos?

1. A Terra Prometida

Israel é, sem dúvida, um dos grandes ícones mundiais quando o assunto são startups e modelos de negócio inovadores. Contudo, o empreendedor brasileiro faz parecer que a pátria judia é, na verdade, uma versão moderna da Canaã dos tempos bíblicos. A realidade, pra variar, é bem o oposto. Para início de conversa, por mais que essas questões tenham avançado nas últimas décadas, Israel continua sendo um país altamente militarizado, no qual atentados ainda são uma frequente ameaça.

O comércio e o acesso a mercados consumidores vizinhos é difícil, senão impossível, e grande parte das inovações criadas no país atende a uma total carência de recursos hídricos e energéticos, de terreno cultivável para alimentar sua população e de novos equipamentos e sistemas de defesa que sejam capazes de manter o tênue equilíbrio entre o governo local e grupos extremistas islâmicos. Ok, pode ser fácil abrir uma empresa ou pagar impostos, mas no Brasil sua empresa jamais será atacada por um homem-bomba e nenhum de nós tem de dessalinizar água para colocar em nossos bebedouros.

2. O charme europeu

Nos gabamos do fato de possuir o país mais burocrático do mundo, mas será mesmo que isso é verdade. Alguém aqui já tentou conseguir um documento em Portugal, ou na Espanha, ou ainda pior, na Itália? Mesmo país do norte, teoricamente menos complexos, possuem intricadas burocracias e documentações absurdas quando o assunto se volta a licenças, por exemplo. Empresários europeus enfrentam grandes dificuldades em termos de documentação e papelada, e com uma desvantagem adicional – por lá, não adianta ser “brother” de um cara da Receita Federal ou da prefeitura, ou ainda dar aquela molhadinha na mão do fiscal.

3. Ahh… a América

Terra das oportunidades. Mas peguemos o trabalhador médio americano. Não é preciso ir até lá, você tem como avaliar isso apenas assistindo a filmes e documentários. Não é nada raro nos Estados Unidos alguém ter dois, três, quatro ou mais empregos ao mesmo tempo. Grande parte dos empreendedores, por sinal, trabalham em jornada parcial em outros lugares, de modo a manter suas contas em dia e até investir algum capital em seus modelos. Já discutimos aqui: a historieta da “dedicação total” é um mito.

Há outro aspecto importante nos Estados Unidos. O empreendedorismo é, sem dúvida, mais incentivado, porém há um forte sistema de marcos regulatórios – não é possível fazer o que dá na telha, como muitos pensam por aqui. Outro lado ainda: a concorrência em qualquer mercado é dez vezes mais brutal do que no Brasil, e embora a tecnologia seja relativamente mais barata, a mão-de-obra é consideravelmente mais cara e disputada, e não é qualquer ideiazinha de aplicativo vagabunda que descola um “sócio programador”. Muito pelo contrário – por lá, quem procura sócios para preencher buracos são os programadores e engenheiros, e não o inverso.

Não era para resolver problemas?

Um ponto de vista contraditório defendido por muitos dos especialistas na área do empreendedorismo é a suposta “barreira” causada ao empreendedor brasileiro, que carece de melhores condições para abrir e tocar sua empresa. O interessante é que essas mesmas fontes defendem abertamente que problemas devem ser vistos como oportunidades… então quer dizer que depende do problema?

Na verdade, não depende não. Startups como a ContaAzul, um dos mais notórios exemplos da nova leva de empresas online brasileiras, somente teve a estratosférica escala que teve por conta de uma razão muito simples: a simplificação do insuportável sistema contábil e financeiro que recai sobre a pequena empresa brasileira. O que a grande maioria das startups ainda vê como barreira foi na verdade o ativo usado para criar valor no caso da ContaAzul.

A startup é o melhor dos exemplos, mas não o único. Diversas empresas têm obtido sucesso na criação de sistemas de pagamento e gestão financeira, concessão de crédito e muitas outras áreas que são excessivamente burocráticas e complexas no país. Precisamos nos lembrar que grande parte das empresas que hoje admiramos na verdade surgiram ou cresceram em plena recessão no mercado norte-americano. A fragilidade do mercado tradicional apenas concedeu a esses novos empreendimentos mais espaço para crescer e, já que agora somos nós em uma crise, será que não seria esse o momento de tomar à força o mercado viciado e rançoso que ainda temos por aqui?

 



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