public-speaker
LEIA MAIS
Por que paramos de falar em startups?

Quem lia nosso blog deve ter reparado (ou não lia): não escrevemos nada faz pelo menos 6 meses. Claro, mantivemos algumas postagens em redes sociais, mas o fato é que […]

Odeie a Bel Pesce – agora é ‘hype’

Até uma semana e pouco atrás, todos os exultantes e fascinados “empreendedores” por profissão no mercado online e nas redes sociais adoravam e idolatravam a Menina do Vale. Não importa […]

Devo criar minha empresa no Brasil ou no exterior?

Muitos empreendedores jovens, alguns ainda vivendo com os pais, têm feito repetidamente a si mesmos e a colegas, amigos e conselheiros essa mesma pergunta: “devo abrir minha empresa aqui ou […]

Guia rápido para o empreendedor que virou palestrante

Quando eu estava prestes a fazer 18 anos, já cursando engenharia elétrica e com um certo “quê” de aborrecimento, houve um dia em que esqueci meu material de desenho geométrico – régua T, esquadros e umas tantas canetas nanquim – em uma praça nas imediações da Rua da Consolação, na cidade de São Paulo. Já estava chegando a pé na estação do metrô na Santa Cecília quando me dei conta. A corrida levava uns 10 minutos na volta, mas valia a pena tentar – esse tipo de material costuma ser bastante caro, especialmente no caso do conjunto de nanquim, e não é sequer muito fácil de achar por aí.

Cravei 8 minutos, desviando das pessoas nas calçadas da Rua Veridiana, uma enorme subida. Cheguei próximo da praça ofegante, olhando para todos os lados em busca de sinais do meu material, embora não lembrasse exatamente onde eu o havia deixado. Vasculhei cuidadosamente toda a praça, inclusive questionando alguns dos passantes a respeito do material, sem que uma pista sequer viesse à tona. Mas ainda era cedo demais para desistir. Atravessei a rua até uma das muitas bancas de jornal da área, onde o proprietário dormia tranquilamente, sentado em uma cadeira de praia ao lado de suas pilhas de jornais e revistas.

Gesticulando nervosamente eu lancei sobre o pobre senhor algumas dezenas de perguntas em poucos segundos, ao que ele calmamente levantou o chapéu, ergueu-se da cadeira e fez uma única pergunta: você tem um cigarro? Meio puto, mas disposto a ser cordial com o idoso proprietário, assenti e cedi-lhe um cigarro, acendendo-o com um dos isqueiros que ficavam em cima do caixa da banca de jornal.

Antes que eu pudesse simplesmente virar as costas e ir embora, ele começou.

“Uns 30 minutos atrás uma senhora notou uma sacola naquele banco ao lado da estátua, na praça. Ela deu uma olhada dentro dela e pareceu um pouco confusa – acho que não sabia do que se tratava. Pegou a sacola e foi até aquele guarda na direita, que estava tomando um café na calçada em frente à padaria que fica na outra esquina. Vi que eles conversaram alguns poucos segundos, e o guarda fez menção de pegar a sacola, mas a moça recuou e abanou a cabeça dizendo que não. Ela deixou o guarda gesticulando e entrou na padaria, saindo alguns minutos depois, ainda com a sacola. Atravessou a rua e foi até o salão de cabeleireiro. Suponho que perguntou a algumas das pessoas que estavam ali – o dono da sacola não podia ter ido longe, acho que ela pensou, e havia poucos estabelecimentos já abertos aquela hora da manhã.

Depois disso ela parece ter mudado a estratégia. Ficou parada uns 10 minutos na principal entrada do parque, provavelmente esperando que alguém viesse procurar a sacola, mas ninguém apareceu. Nos minutos finais ela parecia mais nervosa – creio que certamente tinha algum compromisso, mas não queria deixar a sacola jogada por aí de qualquer jeito. Foi nesse momento que eu resolvi acenar – ela demorou um pouco para ver, mas assim que me achou gesticulando aqui, veio rapidamente, quase sendo atropelada por aquele motoqueiro que está saindo do prédio aqui na travessa lateral. Um pouco assustada, ela chegou até aqui e começou a contar a história, mas com o rabo do olho eu vi você chegando nervoso na praça e pedi a ela que deixasse comigo a sacola, pois tinha quase certeza de que você deveria ser o dono e ela visivelmente tinha outros planos para o dia”.

Terminando, o senhor puxou minha sacola da parte de trás da pilha de jornais e entregou. Eu agradeci com os olhos, mas não pude me conter: “obrigado, mas por que você não disse logo que estava com a sacola?”

“Tudo fica melhor quando você tem uma boa história”, disse ele, sentando novamente na cadeira de praia, abaixando o chapéu e voltando a cochilar. Nesse momento eu sabia que a engenharia não era mais uma boa ideia e resolvi que jornalismo era mesmo o que eu queria. Encostei a sacola com o material de desenho ao lado da pilha de revistas e voltei sem pressa para a estação de metrô.

O guia para o empreendedor

Tirando o fato de eu realmente ter cursado dois anos de engenharia elétrica no Mackenzie, em São Paulo, nada disso jamais ocorreu. Ainda assim, é uma boa história. Isso me faz pensar o quanto das histórias atualmente contadas em palcos por empreendedores que “viraram” palestrantes são reais. Realmente não importa – desde que seja uma história bem contada. Contudo, na maioria dos casos, não há nada de interessante nelas – o que me faz pensar em mais duas coisas:

  1. As histórias provavelmente são reais;
  2. Empreendedores não sabem contar boas histórias.

Neste ponto, você deve estar supondo que eu defendo a tese de que boas histórias são necessariamente mentirosas. Não é bem isso. Eu apenas diria que a maioria dos empreendedores hoje atuando como palestrantes não sabe construir um bom enredo – não é preciso mentir, mas construir é algo completamente necessário.

Voltando à história do velho na banca de jornal. O mais interessante é que nada disso ocorreu EXATAMENTE do modo que contei, mas a verdade é que o personagem da banca existiu, e o objeto perdido na história verídica da qual ele participa é ainda mais inusitado: a sacola não continha material de desenho geométrico, mas sim uma garrafa de tequila e alguns limões. Se pensarmos a respeito, veremos que com essa nova informação, a história tem possibilidades de se tornar ainda mais interessante. O protagonista, no caso, também não era eu, mas sim um amigo que morava nas imediações, e que de fato deixou a sacola no banco da praça por um lapso, e acabou voltando desesperado e descrente em busca da sacola, encontrando-a com o velho da banca.

Foi por essa razão que virei jornalista? Não sei, também ou quem sabe. Não houve uma única razão para que eu escolhesse minha profissão, assim como empreendedores não são feitos a partir de um único caso ou episódio isolado. Contudo, empreender por “uma série de fatores” não tem nada de novo e certamente não lota um auditório em um evento. Nossa audiência assiste a uma palestra em busca de um momento, uma fórmula, um acontecimento que nos tenha levado a mudar e assumir um novo papel, o que no final de tudo se traduz em uma boa história.

E quanto ao “guia”, você deve estar perguntando. Eis aqui 5 passos infalíveis para criar histórias empreendedoras mais interessantes do que a maioria das que vemos hoje em dia:

  1. Encontre um momento de dificuldade ou incerteza inusitado e diferente, em sua vida ou na vida de alguém que você conhece;
  2. Crie um enredo envolvendo, demorando o máximo possível para chegar até o ponto de virada da história, mas sem perder a atenção do ouvinte;
  3. Exclua personagens irrelevantes e que não contribuam para a “moral da história”, como o motoqueiro, no caso da história que contei;
  4. Trabalhe em cima de objetos de pequena significância imediata, mas que ganhem grande contexto simbólico no final da história;
  5. Conclua a história logo após seu clímax e insira sua mensagem motivacional final.

Legal, acabei de sugerir a você que crie uma história mentirosa a respeito de sua jornada como empreendedor para causar mais impacto e “frisson” na hora em que você for convidado para um palestra. Bem, na verdade eu não sugeri coisa alguma – apenas descrevi uma mecânica que tornará sua história mais interessante e bem sucedida. Porém, agora que você já ouviu tudo isso e, provavelmente, se lembrou de algumas histórias que ouviu por aí, tente pensar apenas em mais duas coisas:

  • Quantas dessas histórias realmente são verdade?
  • O que você estava procurando – a verdade ou um bom motivo?

 

5 Comentários

  1. Verdade, uma boa história vale mais do que muita informação “bruta”. Deve ser por isso que a GAMEFICAÇÃO (ensinar por jogos) está crescendo no mercado (de jogos e educação).

  2. Carlos parabéns pelo artigo, envolvente e “criativo” kk, muito bom.

    De fato a partir de hoje começarei a melhor um pouco minhas habilidades de Storytelling em meus artigos.

    Mais uma vez parabéns.

    Um grande abraço.

    Caso tenha um tempo, visite o meu blog onde tenho o objetivo de ajudar empresa a utilizarem o Marketing Digital em seus empreendimentos.

    Vou adorar ter um comentário seu lá. :)

  3. Nelson de Campos Nolasco says:

    Olá, acessei o artigo GUIA RÁPIDO PARA O EMPREENDEDOR QUE VIROU PALESTRANTE pelo meu Smartphone e não consegui encontrar a autoria do mesmo.
    Solicito-lhes esta informação.
    Abraço!
    Nelson Nolasco.