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Gente burra empreende melhor

Desde a primeira série do ensino básico, sempre me questionei – as professoras e “tias” sempre falavam a respeito de um ou outro aluno como sendo inteligentes, gênios da classe, alunos excepcionais… ninguém jamais apontava os burros. E, na real, eles sempre foram a grande maioria. Não estou sendo elitista ou arrogante, para alguns que adoram “decidir” que final textos e artigos terão antes de terminar de ler a primeira frase. Muito pelo contrário – nunca fiz distinção desse modo. Alguns amigos não iam bem no colégio, mas eram sensacionais, companheiros, jogavam bola e andavam de bicicleta e tinham famílias e amigos de fora do colégio interessantes e diferentes. Alguns eram pobres, outros de classe média, pouquíssimos eram ricos.

A burrice, assim como a inteligência, nunca foi algo preconceituoso – tive amigos que beiravam a condição de milionários, e eram burros como uma porta. Outros amigos, que jogavam bola comigo no campinho da favela próxima ao Autódromo de Interlagos, não tinham onde cair mortos, mas eram de soberba inteligência. Eu emprestava livros para colegas menos favorecidos, e levava amigos riquinhos de burrice sem igual em minhas peladas na bocada, ou para jogar taco na rua, com a molecada das malocas próximas da casa de minha avó.

Foi uma infância ótima, mas não é dela que vou falar por aqui. A grande conclusão que tirei, com o passar do tempo, partindo da estatística informal, é que gente burra empreende melhor.

Objetividade

Muito se fala de soluções simples para problemas quando conversamos sobre empreendedorismo. Gênios e estudiosos divisam estratégias e modelos de negócio inovadores, usando o que há de mais moderno e pensando em mil variáveis e métricas para atender o usuário e medir a eficiência de seus protótipos. Os números e resultados disso tudo estão aí – mais de três quartos das startups e empresas inovadoras não sobrevivem a dois anos de vida.

O burro não se preocupa com protótipos. Sua mente simplória leva diretamente à solução mais simples que responda ao problema, sem cálculos, abstrações, antecipações, modelos cósmicos e multidimensionais… se o gênio vê uma torneira pingando, ele imediatamente pensa em uma nova torneira. O burro vai até o Leroy Merlin e compra uma nova – ou gasta menos ainda, compra uma bucha e troca.

Propósito ao empreender

Os geninhos de plantão falarão que o burro não tem um propósito, aliás, mais uma das palavrinhas da moda no empreendedorismo. O burro, enquanto resolve o problema da torneira, não está preocupado em resolver a seca do estado de São Paulo, ou acabar com a fome no mundo ou conquistar uma galáxia muito, muito distante. Ele quer consertar a torneira. O burro tem propósitos simples – ter conforto, sustentar um filho, consertar as coisas. Sim, esses são propósitos.

E com seus propósitos simples, ele é conduzido à ação. Enquanto ele troca torneiras de metade do condomínio, você gasta meses pensando em um sistema ultra-inovador, que eliminará gotejamentos para sempre, mas custará R$ 500,00 e não terá mercado. Você gastou tempo e dinheiro, e o burro ganhou uma bela grana para sua cerveja com os amigos. Enquanto você pensa, ele sem querer começou a empreender.

Investimento

Gente burra está sempre preocupada em como ganhar dinheiro. Um burro que monta um carrinho de hot dog quer fazer uma grana extra, não criar um cardápio gourmet e diferenciado, ou sair no guia da Vejinha, ou se tornar um  chef de cozinha. O mais engraçado é que o negócio do burro, simples e óbvio, sempre encontra mercado, mesmo que haja alguma concorrência. O gênio diferencia tanto seu cardápio em um maravilhoso food truck, que acaba demandando investimentos de centenas de milhares de reais antes mesmo de vender o primeiro sanduba.

Recursos humanos

Adoro quando ouço especialistas falarem em “downsizing” ou equipes “enxutas”. O burro empreende sem inventar, e durante o crescimento de seu negócio, acaba contratando apenas a mão-de-obra que realmente precisa. Empreendedores burros contratam vendedores, atendentes, contadores ou operários. O gênio contrata CEOs, CFOs, COOs, CMOs e toda sorte de siglas, além de inventar cargos com nomes lindos e funções tão específicas que jamais serão úteis, como ninjas de linkbuilding ou content marketing jedis. Empreender para o burro geralmente significa comprar ou produzir algo por “X” e vender a “X+1”, de modo que ele só contrata quem o ajude a cumprir essa missão.

Vaidade zero

Empreender para o burro é geralmente um simples ímpeto,  uma necessidade ou até mesmo um “próximo passo”. Ele quer ganhar dinheiro, sem inventar muito no processo. Gente burra não cria produtos e serviços para satisfazer seus egos, e não faz questão alguma de participar em eventos, palestras ou programas de TV como especialista nisso ou naquilo. O burro não empreende por vaidade. O gênio cria mil estratagemas e fórmulas para atingir sua realização pessoal e, quer saber, acaba falhando miseravelmente, enquanto que o burro chega à autorrealização fazendo apenas o feijão-com-arroz.

Use sua burrice

É claro que esses tópicos não ajudarão você leitor. Tenho certeza de que ninguém que chegou até aqui é burro, não é mesmo? Uma pena. A burrice encerrada no mais profundo recôndito de sua mente teria o poder de fazê-lo empreender de modo épico, praticamente sem recursos ou investimento, usando apenas sua própria força de trabalho e começando a partir de algo tão ou mais simples do que uma torneira, como aquela do banheiro de sua suíte, que desde que você se mudou continua pingando. Bem, chame um burro que ele resolve pra você – mas pode ser que você tenha que morrer uma graninha.

12 Comentários

  1. Cassiano says:

    Acho que a bênção é em não ter tanto conhecimento, quanto mais a gente aprende mais ficamos receosos. Se diminuirmos o nosso entorno de conhecimento tudo fica mais simples, rotineiro, menos concorrido e rápido.

  2. Danilo Faranjos says:

    Muito interessante e bem observado.

    Na minha infância, na roça, os mais velhos nos perguntavam a diferença entre o burro(animal) e o cavalo.

    A diferença:
    O burro, depois que aprende um caminho, ele o faz automaticamente, sem a necessidade do dono guiar o animal. Já o cavalo, se o dono não o guiar, ele segue qualquer caminho mesmo depois de passar por inúmeras vezes.

    Alguns diziam que o burro era mais “inteligente” que o cavalo, já que era só o dono montar nele que ele o levava pra casa. Muitos preferiam burros a cavalos justamente por esta objetividade, principalmente aqueles que usavam o animal pra fazer sempre o mesmo trajeto.

  3. Cesar says:

    Eh nois queiroz

  4. Marcus Braz says:

    Bom texto. Talvez, para algumas pessoas “inteligentes”, lhes tenha faltado as ‘aspas’ na palavra burro para entender que, no final das contas, o “burro” é o inteligente, pois busca a simplicidade que necessitamos nas repostas aos problemas. Quase sempre, menos é mais. E não raramente, tudo que é demais (inteligência, por exemplo) cega às respostas mais simples — e eficazes!

  5. Sabrina says:

    Demais esse texto! Parabéns!!

  6. Paulo says:

    Muito bom!! TB joguei bola nas quebradas de Interlagos (city Dutra). Você me fez lembra de como resolviamos vários problemas de forma simples (não deixavamos de solta pipa se a Mãe não nos desse dinheiro…fazíamos uma capucheta de papel)… Parabéns pelo texto!

  7. Alan Paduelli says:

    Parabéns pelo artigo. Uma palavra que resumi bem este artigo é INICIATIVA. Tomar sempre uma iniciativa, não apenas ficar se perdendo em planejamentos infinitos e perfeccionistas. AGIR, AÇÃO, AGORA, JÁ…

  8. Marco says:

    Acho que nesse mundo, quem sobrevive são os burros, os muito inteligentes e os espertos. Os que não são espertos, não são burros mas também não são muito inteligentes, sofrem demais, pois querem fazer a diferença mas não conseguem. Uma pena. O burro só se safa dessa porque vão direto ao ponto.

  9. Rafael says:

    Acho interessante a idéia do texto e justamente por não ser “burro” consigo interpretar e captar a idéia central do texto. Acho que a polêmica me atraiu para ler, mas ao ler, e mesmo gostando da idéia, senti que a palavra “burro”, passa uma visão pejorativa e desprestigiosa de pessoas que poderiam se sentir ” xingadas”. Enfim, a idéia poderia ser passada usando o conceito do Medo e da Culpa, que travam as pessoas em arriscar e começar simples, que o mesmo medo que te mantem vivo, te trava ou te faz pensar em N variáveis. Inclusive estas são duas coisas muito discutidas no Vale do Silício, reduto de empreendedores que a cada dia são orientados por mentores a deixarem o medo de lado e o medo da culpa de lado para investir nas idéias com uma excelente capacidade de execução. De qualquer maneira eu gostei do texto! Abs

  10. Aleck Yann Matos says:

    Ótimo texto, kkkkkk muito legal de ler…
    Pena que tem gente que leu tudo sem notar a ironia, trágico!

  11. Thiago says:

    Pela sua lógica torneiras não existiriam pois os burros continuariam buscando água no rio…. Se dedique a escrever sobre o tempo… Os inteligentes inovam os burros operacionalizam…. Tudo que existe e uma discrepancia de tempo… O que se inova hoje, sera a fonte de renda do burro de amanha… Parta deste ponto no seu próximo texto…. Boa sirte