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Empreendedorismo – por que estudar outra coisa?

O fato de eu ter escrito um livro sobre o tema pode fazer parecer que estou dando um tiro em meu pé – não estou. Dia após dia, vemos todos os grandes gurus do empreendedorismo nacional criticarem de maneira ácida e sem rodeios o sistema brasileiro de ensino. A pergunta é simples: por que, então, estão ensinando o empreendedorismo com o mesmo método?

Grande parte dos cursos e grades de treinamentos ligados ao empreendedorismo no país seguem exatamente a mesma lógica de todos os demais cursos ministrados no Brasil. Apostilas e material copiado de fontes aqui e ali, acadêmicos que nunca viram a luz do sol ao vivo, apresentações em Powerpoint que são lidas palavra a palavra por tutores e mestres e por aí vai. O ensino do empreendedorismo, como ele está ocorrendo em muitas frentes, apenas faz do tema mais uma disciplina de um curso comum: teórica e pouco prática, exigindo trabalhos e tarefas que não possuem qualquer aplicação no mundo real e com “professores” que empreenderam tanto quanto qualquer funcionário público (alguns deles, inclusive, funcionários de estatais com mais tempo livre do que deveriam ter).

Onde estamos?

Estamos em uma era na qual empreender se tornou algo mais fácil e mais variado. Um designer que realizar trabalhos como freelancer, um rapaz que faz carretos para o bairro onde mora, um blogueiro ou um garoto de 12 anos que revende figurinhas de álbum repetidas para comprar mais na banca de jornal. Todos são, indistintamente, empreendedores. Nenhum deles sentou em uma carteira ou viu intermináveis apostilas, acompanhadas de cartas de venda que repetem o mesmo tempo em dezenas de páginas, fazendo suspense a respeito de algum conteúdo banal.

O empreendedorismo não é e nunca será uma ciência. Ele é simplesmente uma resposta a problemas, em forma de soluções. E, cá para nós, ainda que seja possível ensinar alguns tipos de soluções aqui e ali, não ensinamos as pessoas a terem problemas. Problemas são algo que as pessoas precisam viver na pele, para que possam construir respostas que as aliviem de suas consequências. O ensino de empreendedorismo deveria ajudar as pessoas a identificarem problemas – que hoje não são poucos – e não a aplicar receitas de bolo a toda e qualquer situação que “se pareça” com um problema.

Para onde vamos?

Se encarado como disciplina “normal”, o empreendedorismo apenas irá se empilhar em uma outra miríade de modismos que já habitaram a área educacional, como aulas de educação sexual, EMC e OSPB (quem tem mais de 30 deve se lembrar) e economia do lar ou doméstica. Teremos alunos matando a aula de empreendedorismo para ir ao shopping center, como fazem com matemática ou laboratórios de química ou física.

Conheço bem o conteúdo de muitos dos cursos que vêm sendo ministrados na área, tanto como parte de grades curriculares quando como extras ou cursos livres. Deixe-me dizer algo: vá estudar outra coisa. Pretende montar um negócio na área de alimentação? Vá fazer treinamentos e cursos no Senac, para garçons, cozinheiros ou gerentes de restaurante. Aprenda mais sobre o negócio que você quer abrir, seu cotidiano, sua real necessidade e seus desafios. Esqueça o mundinho dos diagramas do Canvas e técnicas maravilhosas para conseguir investidores até que você saiba, de fato, que diabo está fazendo.

Para onde deveríamos ir?

Se estamos seguindo no rumo errado, então qual seria o certo? Bem, está mais do que comprovado que o modelo de mega-companhias que vemos hoje não satisfazem as pessoas, criam serviços e produtos que não possuem identidade com o cliente ou usuário, levam a cenários de depressão e a doenças ocupacionais cada vez mais frequentes e criam uma vida de muito trabalho e poucas perspectivas. Estamos educando “empreendedores” para atuar nos quadros de grandes empresas ou vender ideias supostamente geniais para as mesmas. Deveríamos estar criando empreendedores que agissem de modo sustentável, para criar estilos de vida completos baseados em seu próprio esforço e trabalho e norteados pelas necessidades e problemas que enfrentam em seu dia a dia.

O “empreender” brasileiro de hoje se parece com o modelo americano da década de 1980. Perdeu o emprego? Adquira uma franquia e “empreenda”, ou use suas economias para criar uma empresa e conseguir “investidores”. Deveríamos caminhar, ao invés disso, para um modelo que permitisse a essas pessoas empreenderem, usando suas suadas economias para se manter até que seus negócios e empreendimentos pudessem lhes dar sustento – e não torrando a totalidade deles em modelos prontos, que certamente não resolvem os problemas existentes em seu cotidiano.

A ideia torpe de “não ter chefe” é vendida, mas nos prestamos a viver um empreendedorismo no qual somos reféns de modelos pré-estabelecidos ou de investidores que não veem a hora de se livrar dos negócios supostamente promissores que temos por um preço pouco maior do que aquele que pagaram.

Deveríamos caminhar para um empreendedorismo que nos permitisse ter uma vida melhor – e não estou falando de dinheiro. Deveríamos estudar tudo aquilo que nos permite empreender, e isso inclui um bocado de coisa que não está nesses maravilhosos cursos. Deveríamos caminhar para um empreendedorismo que entendesse nossa realidade ao invés de ditar mais regras que devemos seguir – mas talvez isso seja pedir demais, afinal, quem está dando os cursos e treinamentos de hoje também só está empreendendo.



Um comentário

  1. Baita artigo! Cheguei ao blog procurando no Google pela saturação dos produtos digitais, um tema infelizmente pouco comentado no Brasil, encontrei o artigo “Por que nunca comprar infoprodutos?” e então comecei a ler vários outros. Precisamos de mais brasileiros com essa visão “negativista”, mas não tantos, porque eu partilho da visão e se ela ficar banalizada poderei perder meu espaço, hahaha.