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Desigualdade digital – o engodo do país “conectado”

É certo que a população brasileira, como um todo, progrediu nos últimos anos. Obtivemos acesso a novas tecnologias, maior disponibilidade de crédito (não necessariamente de renda) e também uma facilidade maior para se deslocar, fisicamente falando, em um território de proporções continentais. Ainda assim, me incomoda enormemente as afirmações de que a internet “vem reduzindo a desigualdade social”. Bem, em primeiro lugar, fosse o acesso à internet um serviço gratuito, eu entenderia tal afirmação… mas não o é. Pelo contrário, a despeito de ‘pacotes’ aparentemente mais baratos serem comercializados em regiões menos favorecidas, ou simplesmente distantes demais dentro do país, devemos considerar dois fatores que tornam, na verdade, os preços desses pacotes absurdamente mais caros:

  • Internet “teco-teco” – apesar de ser ‘um pouquinho’ mais baratos, pacotes de banda larga em cidades com menos de 150 mil ou 200 mil habitantes em regiões distantes de capitais e áreas metropolitanas dificilmente alcançam mais de 10 Mega, enquanto em grandes centros urbanos alguns pacotes de entrada já oferecem velocidades entre 15 e 35 Mega, além de conexões mais estáveis e que mantém sua banda satisfatoriamente acima dos 20% ou 30% do total admitidos por lei;
  • Custo e nível de vida – talvez hoje em dia um serviço de internet por R$ 70,00 ou R$ 80,00 mensais seja o “dinheiro da pinga” em São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília, cidades que perderam a noção do valor do dinheiro há uns belos anos. Contudo, em cidades médias e pequenas no interior de estados no Norte, Nordeste, Centro-Oeste e mesmo cidades menores no Sul e Sudeste, R$ 80,00 é muita grana.

Podemos justificar a oferta pobre de banda em regiões mais distantes ou com menor concentração populacional com a “lei da oferta e demanda”, mas o grande desafio dessa era do empreendedorismo que vivemos não é o de “criar novos mercados”? Então por que seguimos apenas desenvolvendo soluções para os antigos?

Mentalidade do garantido

Tomo a liberdade de chamar a postura acima de “mentalidade do garantido”. Em termos de risco, sem dúvida é mais fácil manter um mercado já consumidor com novos produtos e versões aprimoradas (e sempre mais caras) de um mesmo produto ou serviço. Essa parece ser a mentalidade empresarial brasileira – poucos se propõem ao risco de oferecer um serviço avançado a preços subsidiados para mercados que deles não usufruem, com o objetivo de criar demanda. Talvez falte às operadoras um pouco mais de “visão startup” da coisa, ou talvez elas simplesmente estejam lucrando demais do jeito que levam a coisa hoje.

O fato consumado, entretanto, é que a tal ‘inclusão digital’ segue a mesma velha lógica de expansão geográfica de todo o restante da economia. Enxovalhando o Sudeste e capitais com serviços caros e supostamente de ponta, e servindo o interior e cidades menores com um serviço suficiente para cumprir com metas governamentais. Da mesma forma que os portugueses trocaram o pau-brasil por espelhos, trocamos votos e propagandas de “inclusão” por um acesso à internet padrão 2001 (o ano, não o filme).

A desigualdade digital surge daí: enquanto podemos usufruir de serviços de streaming de vídeo, alta definição e comunicação (como o Skype e o Google Hangout), moradores de cidades distantes penam para conseguir acessar uma página mais sofisticada na web, ou assistir a um vídeo melhorzinho no Youtube. Se acham que estou falando besteira, tentem fazer um conference via Skype com vídeo com alguém no interior da Bahia ou no sul do Pará, ou digam a seu primo na Região Norte que ele teste o serviço do Netflix em sua TV.

Em relação ao 3G (e o lendário 4G), embora a velocidade das conexões seja mais igualitária, o alcance da rede é intermitente, quando não imprevisível. Não se pode basear uma política de inclusão digital em um sinal que “é melhor dependendo do lugar da casa que você está”. Além disso, pacotes de internet a preço fixo não são uma constante e, por vezes, seu uso é ainda mais caro que na banda residencial.

Soluções?

Como startups, devemos prever as limitações de banda e acesso à rede nas diversas regiões brasileiras, e também classes sociais, na hora de desenvolver nossos produtos. Aplicativos leves, que possam atingir o público de regiões menos privilegiadas em termos de velocidade sem prejuízos; serviços que não façam o usuário perder muito tempo, já que no caso do acesso via 3G, tempo muitas vezes é dinheiro (gasto) e, finalmente, a consciência de que a má distribuição de banda também é um problema, e grande, a ser resolvido.

Ecossistemas empreendedores

Muito se fala da formação de ecossistemas empreendedores, mas no que depender da forma e velocidade de expansão dos serviços de banda larga, esse privilégio parece mais uma vez estar restrito aos estados do Sul e Sudeste, ou se muito, a capitais. Segundo dados do Ministério das Comunicações, o número de conexões de banda larga fixas fechou outubro de 2013 em 22 milhões no Brasil – no acumulado de 2013, isso representou uma alta de 9,7%. Embora os estados das regiões Norte e Nordeste tenham registrado, em média, um crescimento entre 11% e 15%, os estados do Sul e Sudeste também tiveram crescimentos da ordem de 8% a 10%. Se considerarmos que nas regiões menos favorecidas o aumento, em grande parte, se deveu à entrada de serviços de banda de 1 Mega em cidades que antes sequer eram atendidas, chegaremos à conclusão de que o crescimento segue maior ao sul.

Ainda em cima dos mesmos dados, enquanto que as regiões Sul e Sudeste, que concentram respectivamente 14,5% e 41,6% da população do país, possuem 17,4% e 60,8% das conexões de banda larga, a Região Nordeste, com 27,9% da população brasileira, concentra apenas 11,4% dessas conexões. No Norte, 8,5% da população do país tem acesso a apenas 2,8% das conexões de banda larga.

Com tudo isso em mente, é difícil esperar o surgimento de grandes ecossistemas de startups de tecnologia em cidades com menos de 100 mil habitantes em regiões mais longínquas de nosso país, como ocorre nos Estados Unidos com frequência, onde hoje grandes destaques na indústria de tecnologia surgem em cidades com 30 mil ou 40 mil habitantes, nas quais o custo e estilo de vida proporcionam, na verdade, uma vantagem competitiva sobre muitas startups surgidas em São Francisco, Nova Iorque ou Chicago. Aqui, ao que tudo indica, podemos esperar que durante um bom tempo ainda as “meninas dos olhos” do segmento startupeiro estejam pipocando em São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais.



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