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Data centers e a proteção de mercado

Com algumas modificações, incidência de novos tributos, manutenção de impostos já existentes e muita vontade de criar um “padrão nacional”, o governo elevou a carga tributária sobre serviços de data center e aluguel de servidores mantidos no exterior. Pelo que pude constatar, a razão ainda não abandonou completamente o segmento de tecnologia e startups: a grande maioria dos empresários e empreendedores viu a medida com total reprovação. Contudo, ainda há quem REALMENTE acredite que a reserva de mercado e a sobretaxação de serviços estrangeiros seja a saída inteligente para desenvolver uma saudável indústria de tecnologia no país.

Bem, em primeira análise, se algum desses defensores do mercado fechado viveu na década de 1980, de duas uma: ou até hoje restringe seus conhecimentos de computação ao uso do Microsoft Office, ou é descendente dos antigos donos de empresas como Dismac e Prológica, que faturavam milhões na época em que o Brasil dava dois passos atrás a cada passo à frente das multinacionais, mas que faliram ao primeiro sinal de abertura de mercado.

Discussão de boteco não leva a lugar nenhum – decidir quem é a favor ou contra o protecionismo somente leva o assunto para o contexto eleitoral. Decidi, portanto, utilizar uma das teorias mais difundidas e populares em nosso meio – o “Oceano Azul”, para introduzir um novo cenário aos já conhecidos oceanos vermelho e azul: o OCEANO VERDE E AMARELO.

Orgulho nacional

Exceto pelo futebol, o Brasil sempre foi um país com sérios problemas de autoestima. Isso não melhorou nos últimos 20 anos. Ao menor sinal de índice ou notícia positiva, já levamos ao extremo nosso chamado “orgulho de ser brasileiro”, de modo a beirar o ufanismo e causar espanto até mesmo em nossos conterrâneos. Nossas “super” inovações nada mais são, em geral, do que uma “guaribada” em tecnologia pré-existentes. O motor flex, por exemplo: em tese, o grande avanço tecnológico visava a redução da emissão de poluentes e aumento da autonomia dos veículos. A redução acabou não vindo, pois o álcool é cara e não rende tanto quanto a gasolina, além do mais, os próprios fabricantes recomendam um certo uso periódico de gasolina. Em relação à autonomia, carros flex rodam muito menos quilômetros por litro. Nesse aspecto, não estamos tão distante do antigo carro a álcool – afinal de contas, forçando a barra ele também rodava com gasolina.

O fato é que o brasileiro tem uma certa propensão a supervalorizar o que é produzido aqui, embora sempre em detrimento de algum ente maligno que vive no exterior, simplesmente com o único objetivo de quebrar empresas brasileiras. Palavra de quem já viajou muito? Eles não ligam tanto assim.

A luta

O mesmo maniqueísmo que se aplica à política brasileira, parece, de tempos em tempos, se aplicar à economia e ao mercado. Os estrangeiros são os maus e os pobres pesquisadores e inovadores brasileiros precisam de incentivo para combatê-los. O grande problema é que, a começar pelos setores mais beneficiados por medidas governamentais de renúncia fiscal, a predominância é de controladores estrangeiros. Setores como o automotivo, o de eletrodomésticos e mesmo o siderúrgico e o químico possuem grande presença de empresas multinacionais e sempre são contemplados por medidas de incentivo econômico.

Contudo, o setor de tecnologia é uma incógnita. Temos hoje, startups ou não, dezenas ou talvez centenas de milhares de empresas de tecnologia dos mais variados campos, a grande maioria delas de pequeno porte, desenvolvendo soluções e produtos que empregam indistintamente recursos nacionais e estrangeiros, para criar serviços e softwares mais baratos e escaláveis, que realmente resolvam problemas locais e não venham prontos e enlatados.

Voltemos agora às novas diretrizes de tributação sobre data centers no exterior. Cálculos de especialistas estimam que a tributação sobre o uso desses serviços por empresas nacionais chegará a 50%. Alguns ufanistas, de imediato, ressaltaram as virtudes da medida para criar mercado e oportunidades para empresas brasileiras. Mas, se analisarmos a fundo, somente estamos criando um Oceano Verde e Amarelo, igual ao que segue no infográfico.

info50porcento

A tal “luta” contra serviços estrangeiros certamente não beneficiará os clientes desses serviços no Brasil, e quanto à possibilidade de “incentivar a inovação” no país, vamos a algumas constatações:

  • Muitas pequenas empresas de soluções, web hosting e serviços na nuvem na verdade utilizam servidores estrangeiros para criar seus produtos no Brasil e oferecer serviços escaláveis para seus clientes. Como primeiro impacto, essas empresas terão de repassar os 50% de tributação a seus clientes, perdendo seu diferencial em termos de preços.
  • O mercado, já bastante concentrado nas mãos de grandes empresas nacionais de serviços na web, notadamente Locaweb e UOL, ficará ainda mais concentrado nas mãos desses gigantes, que estão entre as poucas empresas capazes de manter grandes data centers operando no país em um curto espaço de tempo.
  • Todos os cálculos de escalabilidade e custos realizados por startups terão de ser refeitos, sob pena de desequilíbrio no pricing final de seus produtos.
  • Com serviços estrangeiros mais caros, empresas dominantes no mercado nacional poderão operar livremente no Oceano Verde e Amarelo, ampliando seus preços mesmo sem oferecer quaisquer benefícios adicionais ou diferenciais competitivos.
  • Sem temer a concorrência externa e com possibilidades de elevar preços sem gastos com desenvolvimento e pesquisa, o mercado nacional tende a manter os mesmo produtos e serviços no mercado sem alterações, pelo maior tempo possível.

Não se trata de torcer contra ou a favor – o peso da medida, como ocorre em outros mercados com notória reserva no país, como o automotivo, o siderúrgico e também de hardware e devices, continuará a incidir sobre os custos de muitas empresas e usuários. A oferta de data centers nacionais não dobrará da noite para o dia, mas talvez a demanda o faça. Continuaremos contratando serviços estrangeiros, porém dessa vez pagando mais. Enquanto isso, UOL, Locaweb e outros gigantes navegarão nas águas calmas e quentes do Oceano Verde e Amarelo, seguros de que a concorrência estará sempre detrás da barreira convenientemente colocada à frente dela pelo governo.

Para quem, ainda assim, defende a reserva de mercado em TI, meus sinceros votos da mais elevada estima e consideração… para com seus fornecedores, que provavelmente seguirão sorridentes e bem remunerados, enquanto suas opções somem de cena uma a uma.



Um comentário

  1. Burnit Withfire says:

    Eu trocaria o “Oceano Vermelho” para “Oceano Amarelo” e o “Oceano Verde e Amarelo” por “Oceano Vermelho” para fazer jus ao momento político atual. Nada mais prejudicial para uma economia que um Oceano Vermelho neste contexto que cito.