LEIA MAIS
Por que paramos de falar em startups?

Quem lia nosso blog deve ter reparado (ou não lia): não escrevemos nada faz pelo menos 6 meses. Claro, mantivemos algumas postagens em redes sociais, mas o fato é que […]

Odeie a Bel Pesce – agora é ‘hype’

Até uma semana e pouco atrás, todos os exultantes e fascinados “empreendedores” por profissão no mercado online e nas redes sociais adoravam e idolatravam a Menina do Vale. Não importa […]

Devo criar minha empresa no Brasil ou no exterior?

Muitos empreendedores jovens, alguns ainda vivendo com os pais, têm feito repetidamente a si mesmos e a colegas, amigos e conselheiros essa mesma pergunta: “devo abrir minha empresa aqui ou […]

A senzala do empreendedorismo

Para quem nunca gostou de trabalhar de graça, o brasileiro está dando um duro desgraçado. Nos últimos três anos estive em contato com milhares de empreendedores – talvez caiba na mão o número deles que está milionário, ou nem isso. “Empreender é difícil”, dizem uns. “É preciso abrir mão”, dizem outros. “Tem que se concentrar no projeto”, outros ainda comentam. E minha favorita: “empreendedor não pode só pensar em ganhar dinheiro”.

Peraí… primeiro, vocês prometem fortuna fácil do dia pra noite, o próximo “Facebook” brasileiro. Depois, dizem que X milhões é muito pouco, e que os empreendedores deveriam buscar investimentos maiores. Pra finalizar, fazem crer que uma empresa que não pode ser vendida por dezenas de milhões de reais dois anos depois de fundada não presta, mas depois de tudo isso querem dizer que o empreendedor “não deve pensar em dinheiro”?

E assim nasce e cresce a senzala do empreendedorismo. Com promessas dignas de um novo conto do bilhete premiado, gurus, mentores, “investidores-anjo” e aceleradoras inflam o ego dos empreendedores com um gordo sucesso futuro que nunca virá. Trabalhando dia e noite, empreendedores se contentam com trocados aqui e ali, mesadas dos pais ou “shares”, “stock” e participações fulecas de empresas que ainda não valem o suficiente para pagar o domínio no qual hospedarão seus aplicativos e sites.

Nos bastidores, negociações e negociatas tomam corpo. Equipes de moleques que trabalham como estivadores de porto são rifados a novos investidores e fundos que apenas querem mantê-los felizes o suficiente para que sejam uma vez mais vendidos. Empreendedores muitas vezes trabalham sem um norte ou perseguindo objetivos que nada têm a ver com aqueles que eles tinham inicialmente.

Na senzala do empreendedorismo, a aceleradora é o capataz, o investidor-anjo o senhor de engenho e os gurus e empreendedores “que se deram bem” são os capitães-do-mato, que arrastam esses pobres homens de volta para as fazendas. O empreendedorismo segue adiante, produzindo “açúcar” a pleno vapor.

É tudo mentira no empreendedorismo?

Não. Só 90% ou algo por aí. O resto é verdade. Existem sim startups e empresas que crescem exponencialmente, há aceleradoras que realmente trabalham, investidores que investem e gurus e mentores que entendem minimamente do que estão falando. O resto é KO, conto-do-vigário, engodo, 171 e qualquer outro nome que você queira dar. Como eu já disse aqui, o mercado consumidor mais promissor desta crise é o empreendedor. E isso não se limita a startups ou a nosso meio. Basta ver como, em plena crise e com comércios fechando portas todos os dias, surgiram duas vezes mais oportunidades de investir em franquias.

De novo, é claro que há franquias que funcionam, mas será que é mesmo prudente, sob o ponto de vista da sobrevivência, empenhar R$ 100 mil ou R$ 200 mil “para ter seu negócio” quando você acaba de ser posto na rua? E eis aqui algo para se pensar, a respeito de algumas franquias que saltitam por aí: se desse tanto dinheiro assim, não seria melhor para os administradores dessas marcas abrirem apenas lojas próprias?

Cadê a Princesa Isabel?

Seu avô nasceu e ela já tinha morrido, sinto informar. E, na verdade, ela não era bem a santa, ou “anjo”, que pintam por aí. No mundo do empreendedorismo moderno não há Princesa Isabel para lhe conceder uma carta de alforria. Só o próprio empreendedor pode se libertar de promessas de sucesso ou enriquecimento. Começar pequeno para depois pensar em ser grande… não era assim que tinha que ser?

Então é melhor não optar pelo empreendedorismo?

Ninguém disse isso. Empreender é uma saída inteligente e, falando pessoalmente, o atual modelo não comporta mais os milhões de jovens que deixam universidades e ingressam no mercado de trabalho todos os anos. Contudo, empreender não é um exercício controlado – criou-se a falsa ideia de que há maneiras certas e erradas de empreender, quando na verdade o sucesso ou o fracasso dependem, muitas vezes, de condições e circunstâncias que certamente estão fora do controle de um empreendedor, mas também dos senhores de engenho e capatazes.

O empreendedorismo é uma resposta, nunca deixou de ser. Ele vem sendo tratado como uma pergunta – e é aí que o contrato de escravidão começa.



4 Comentários

  1. Prezado

    Poucos escritos vão ao encontro dos meus propósitos e de encontro a fórmulas mágicas de se empreender. Meus parabéns. O empreendedor nunca deve se condicionar a investidores ou acelerações. O empreendedor deve usar seu “pote de ouro,” assim como se diz na China, e ditar o ritmo da expensão.

    Atenciosamente Canindé de Freitas

    http://www.kairostech.com.br

  2. Homero says:

    Texto brilhante! Infelizmente, pilantras estão usando o nome de “startup” pra vender esquemas de pirâmide absurdamente descaradas… Pedi demissão do meu último emprego por não suportar a burocracia interna, falta de foco nos reais problemas dos clientes e principalmente por fazer o trabalho de 8 pessoas e receber metade do salário de uma… Estou trabalhando em casa com serviços da minha área e tenho que dizer: foi a melhor iniciativa que tive. Não pretendo ficar rico ou inventar a roda, apenas busco mais humanidade e realismo no meu trabalho diário lidando com problemas reais de pessoas reais.

  3. felipe bastos says:

    Senzala e escravidão é ser obrigado a trabalhar 8 ou mais horas por dia, não receber hora extra, e se virar para sobreviver com 1500 reais. Isso quando não ocorre hipóteses piores como ser discriminado, humilhado, e perseguido pelo superior.

    A pessoa que opta por trabalhar de graça para criar o próprio negócio o faz por que quer, não bate cartão, não está atrás de promessas, mas atrás de realização de sonhos, os quais o esforço próprio e um pouco de sorte serão capazes de realizar. Quem dera o trabalhador assalariado pudesse sonhar, mas não, o tempo todo é lembrado de ser obrigado a suprir as necessidades mais básicas da família, ficando restrito a 1% da empresa pleitear status, auto-estima ou auto-realização.

    Então, que se dane aceleradoras, incubadoras, investidores, milhões ou bilhões, etc .. são apenas fases do processo para se alcançar o topo da pirâmide, ou melhor, a liberdade.

  4. Yuri Pessoa says:

    Bom dia,
    Leio todos os seus textos, alguns mais de uma vez, estou com uma boa ideia na cabeça
    e sinceramente tenho algum medo de cair em certas armadilhas que você sempre cita, tenho em vista que meu objetivo e fazer a minha futura ideia sobreviver, gerando dinheiro, empregos e me fazendo sair do ponto sem rumo que estou, muito obrigado por tudo que escreve, pode ter certeza que e de grande valia para muitos que leem e sabem absorver a informação de forma correta.
    Abraços.