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A senzala do empreendedorismo

Para quem nunca gostou de trabalhar de graça, o brasileiro está dando um duro desgraçado. Nos últimos três anos estive em contato com milhares de empreendedores – talvez caiba na mão o número deles que está milionário, ou nem isso. “Empreender é difícil”, dizem uns. “É preciso abrir mão”, dizem outros. “Tem que se concentrar no projeto”, outros ainda comentam. E minha favorita: “empreendedor não pode só pensar em ganhar dinheiro”.

Peraí… primeiro, vocês prometem fortuna fácil do dia pra noite, o próximo “Facebook” brasileiro. Depois, dizem que X milhões é muito pouco, e que os empreendedores deveriam buscar investimentos maiores. Pra finalizar, fazem crer que uma empresa que não pode ser vendida por dezenas de milhões de reais dois anos depois de fundada não presta, mas depois de tudo isso querem dizer que o empreendedor “não deve pensar em dinheiro”?

E assim nasce e cresce a senzala do empreendedorismo. Com promessas dignas de um novo conto do bilhete premiado, gurus, mentores, “investidores-anjo” e aceleradoras inflam o ego dos empreendedores com um gordo sucesso futuro que nunca virá. Trabalhando dia e noite, empreendedores se contentam com trocados aqui e ali, mesadas dos pais ou “shares”, “stock” e participações fulecas de empresas que ainda não valem o suficiente para pagar o domínio no qual hospedarão seus aplicativos e sites.

Nos bastidores, negociações e negociatas tomam corpo. Equipes de moleques que trabalham como estivadores de porto são rifados a novos investidores e fundos que apenas querem mantê-los felizes o suficiente para que sejam uma vez mais vendidos. Empreendedores muitas vezes trabalham sem um norte ou perseguindo objetivos que nada têm a ver com aqueles que eles tinham inicialmente.

Na senzala do empreendedorismo, a aceleradora é o capataz, o investidor-anjo o senhor de engenho e os gurus e empreendedores “que se deram bem” são os capitães-do-mato, que arrastam esses pobres homens de volta para as fazendas. O empreendedorismo segue adiante, produzindo “açúcar” a pleno vapor.

É tudo mentira no empreendedorismo?

Não. Só 90% ou algo por aí. O resto é verdade. Existem sim startups e empresas que crescem exponencialmente, há aceleradoras que realmente trabalham, investidores que investem e gurus e mentores que entendem minimamente do que estão falando. O resto é KO, conto-do-vigário, engodo, 171 e qualquer outro nome que você queira dar. Como eu já disse aqui, o mercado consumidor mais promissor desta crise é o empreendedor. E isso não se limita a startups ou a nosso meio. Basta ver como, em plena crise e com comércios fechando portas todos os dias, surgiram duas vezes mais oportunidades de investir em franquias.

De novo, é claro que há franquias que funcionam, mas será que é mesmo prudente, sob o ponto de vista da sobrevivência, empenhar R$ 100 mil ou R$ 200 mil “para ter seu negócio” quando você acaba de ser posto na rua? E eis aqui algo para se pensar, a respeito de algumas franquias que saltitam por aí: se desse tanto dinheiro assim, não seria melhor para os administradores dessas marcas abrirem apenas lojas próprias?

Cadê a Princesa Isabel?

Seu avô nasceu e ela já tinha morrido, sinto informar. E, na verdade, ela não era bem a santa, ou “anjo”, que pintam por aí. No mundo do empreendedorismo moderno não há Princesa Isabel para lhe conceder uma carta de alforria. Só o próprio empreendedor pode se libertar de promessas de sucesso ou enriquecimento. Começar pequeno para depois pensar em ser grande… não era assim que tinha que ser?

Então é melhor não optar pelo empreendedorismo?

Ninguém disse isso. Empreender é uma saída inteligente e, falando pessoalmente, o atual modelo não comporta mais os milhões de jovens que deixam universidades e ingressam no mercado de trabalho todos os anos. Contudo, empreender não é um exercício controlado – criou-se a falsa ideia de que há maneiras certas e erradas de empreender, quando na verdade o sucesso ou o fracasso dependem, muitas vezes, de condições e circunstâncias que certamente estão fora do controle de um empreendedor, mas também dos senhores de engenho e capatazes.

O empreendedorismo é uma resposta, nunca deixou de ser. Ele vem sendo tratado como uma pergunta – e é aí que o contrato de escravidão começa.



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