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A hora e a vez das startups (mesmo)

Nos últimos quatro anos, eu provavelmente teria ficado bilionário se ganhasse um dólar para cada vez que li algum artigo dizendo que “agora é a vez das startups”. Correndo o risco de ser repetitivo e até cansativo, sinto-me obrigado a proferi-lo uma vez mais: AGORA É A HORA E A VEZ DAS STARTUPS.

Desconsiderem, ao menos no mercado brasileiro, todas as “vezes” anteriores das startups. Muito do que vimos até agora foi pintado como novidade, mas não consistiu em nada mais do que antigas práticas da economia com nova roupagem e terminologia. Investidores anjos já existiam quando portugueses já estabelecidos no país financiavam padarias e comércios para patrícios que chegavam com uma mão na frente e outra atrás. Prototipagem de produtos é algo que qualquer universidade ou mesmo escola técnica já desenvolvia. Escalabilidade é um desejo e meta de qualquer grande empresa do mundo – desde a produção de commodities até a venda de automóveis. Então, por que é a vez das startups?

Simples: o que há de mais inovador no ecossistema de startups não é algo que está em um diagrama de Canvas ou um infográfico sobre a Lean Startup, mas sim a mentalidade por detrás da razão de existência desses novos negócios em si.

Bons tempos na economia? Que droga…

Startups são constituídas com o objetivo quase esquizofrênico de apresentar uma solução simples e direta a um problema que é enfrentado pelo público-alvo que se pretende atingir. Vivemos, por quase dez anos, um período de pujança econômica no Brasil (para não dizer gastança). Como um castigo para um criança levada, que tarda mas não falha, a conta parece estar chegando, tão grande quanto nossa fascinação e irresponsabilidade em operar com a inundação de crédito que tomou este país.

Se crédito fosse dinheiro, bancos não teriam como sobreviver, mas o brasileiro incorporou seus limites e cartões ao salário e partiu rumo a uma versão tupiniquim de Barrados no Baile – nossos empresários inclusos nesse bolo. Pesados investimentos em empreendimentos que fugiam à realidade se mostraram bem-sucedidos, mesmo contra toda a lógica da economia clássica e da lei da oferta e da demanda. Seguimos agora em uma encosta, ensaiando um pulo em direção ao precipício. Pátios de montadoras estão repletos de automóveis e fábricas demitem sem parar, mas os preços dos carros não caem um centavo. A venda de imóveis já recuou quase 80% em algumas capitais e lançamentos foram praticamente suspensos por muitas construtoras, mas continuamos a pagar R$ 1 milhão por quitinetes sem piso no chão e sem armário embutido.

Alguma coisa vai acontecer – todos nós já percebemos. Mas como todo brasileiro é bom em aconselhar, mas não em acatar conselhos, seguimos brincando de magnatas na beira do penhasco.

Um passeio ibérico

Estive em Portugal e na Espanha recentemente. A velha economia ainda está em frangalhos – condomínios inteiros nos subúrbios ricos das principais cidades estão às moscas, carros velhos voltaram às ruas, mendigos e pedintes enchem as ruas badaladas de Madri e Lisboa e placas de “aluga-se” e “passo o ponto” podem ser vistas em qualquer lugar. A economia nova e criativa, entretanto, está mais forte do que nunca. Pequenos negócios modernos, aplicativos para tudo, bares e restaurantes com propostas que vão além de servir pratos, empresas de automóveis compartilhados e por aí vai.

Enquanto a economia se recupera aos trancos e barrancos, jovens e criativos dão a volta por cima em velocidade espantosa. Pensei muito a respeito caminhando pelas ruas de Sevilha, Madri, Salamanca, Coimbra, Lisboa e outras cidades – parece que a sensação de segurança tênue que mantinha as pessoas presas aos antigos valores se quebraram de vez e empreender deixou de ser apenas uma opção: é um estilo de vida e uma resposta aos problemas.

De volta ao Brasil, tudo parece seguir na mesma: jovens brincam de montar empresas para ao primeiro sinal de naufrágio recorrer a concursos públicos que se abrem aqui e ali, enquanto o governo eleva seu endividamento a níveis perigosos e até mesmo incautos. Nada parece diferente da Europa da década de 1990. Ignorando as lições duramente aprendidas por nossos colonizadores nos últimos 20 anos, seguimos adiante rumo à “segurança” e “estabilidade”. O Brasil de hoje é o principal inimigo das startups e da economia criativa.

Não temos porque reclamar da carga tributária, propinas pagas para tudo, dificuldades e burocracia na abertura e manutenção de empresas – nós mesmos sustentamos esse sistema que oprime o capital criativo e nos faz, ao primeiro sinal de fracasso, abraçar com lágrimas nos olhos as alternativas da velha economia. Temos hoje dois perfis de empreendedores no Brasil: o sobrevivente, que não ganha proventos suficientes em seu emprego de carteira assinada e precisa arrumar “bicos” e o magnata, que pode se dar ao luxo de fracassar em razão da renda que lhe é concedida por pais e familiares.

No meio disso tudo temos grandes mentes do país ingressando em trabalhos do setor público que, é bem verdade, pagam bem, porém enclausuram profissionais dentro de rotinas e esquemas que perduram por mais de um século. Temos também grandes empresas que ganham funcionários oferecendo a tão sonhada carteira assinada – uma versão moderna e brasileiro do Santo Graal.

Tudo isso também era certo e garantido na Europa dos anos 1990 – mas tudo virou pó em pouco mais de dois anos, quando a crise veio para ficar.

Crise – e daí?

Ninguém gosta nem torce por uma crise, porém quando tudo mais dá errado, empreender se torna uma alternativa especialmente sedutora – uma vez que é a única que resta. Ninguém está dizendo que temos de passar por uma crise para que nos tornemos mais empreendedores, mas o que está por vir deixou há muito tempo de ser uma escolha. O governo e os economistas podem dar o nome que quiserem: recessão “técnica”, ajuste, correção ou atenuação. PIB dando passos atrás, inflação ao consumidor em alta, deflação na cadeia produtiva, estoques na indústria, comércio fechando portas… se isso não é uma crise, precisamos reformular nossos dicionários.

O fato é que, como ocorreu na Europa e nos EUA, o período de recessão irá tirar o alicerce seguro ao qual muitos se apegam. Sem concursos e com cargos públicos em recuo e com as principais empresas do país enxugando seus quadros, soluções criativas deverão surgir para responder a problemas cada vez maiores. Startups têm o poder de criar acesso, facilitar processos, reduzir custos e criar produtos mais baratos e simples para o consumidor – tudo isso é particularmente benvindo em momentos de crise.

A nova economia não será em momento algum “decretada” por um governo ou instituição, ela simplesmente surgirá no país como resposta aos problemas da população – startups e seus fundadores têm um papel garantido nessa reformulação da economia, criando soluções mais humanas, compartilhadas, inteligentes e socialmente adequadas. É claro que o sucesso não será mais ou menos garantido – empreender continuará a ser uma missão árdua e, muitas vezes, ingrata. Contudo, quando se deparar primeiramente com o fracasso, o empreendedor terá apenas uma única escolha: colocar tudo de lado e começar novamente do zero.



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