LEIA MAIS
Por que paramos de falar em startups?

Quem lia nosso blog deve ter reparado (ou não lia): não escrevemos nada faz pelo menos 6 meses. Claro, mantivemos algumas postagens em redes sociais, mas o fato é que […]

Odeie a Bel Pesce – agora é ‘hype’

Até uma semana e pouco atrás, todos os exultantes e fascinados “empreendedores” por profissão no mercado online e nas redes sociais adoravam e idolatravam a Menina do Vale. Não importa […]

Devo criar minha empresa no Brasil ou no exterior?

Muitos empreendedores jovens, alguns ainda vivendo com os pais, têm feito repetidamente a si mesmos e a colegas, amigos e conselheiros essa mesma pergunta: “devo abrir minha empresa aqui ou […]

A ditadura da inovação

Ao clicar neste artigo, muitos irão imediatamente associar o título à ideia de que sou contra a inovação – não poderiam estar mais enganados. Não sobrevivemos sem ela – nossa própria evolução como espécie, mas acima disso, nossa sobrevivência e manutenção no planeta, dependem diretamente da inovação. Nosso próprio estilo de vida cria problemas e novos desafios para os quais inovar é a única resposta. Contudo, a “obrigação” da inovação em tudo aquilo que concebemos pode representar um erro e nos levar a uma ditadura sob a qual sempre estaremos buscando a inovação como uma prerrogativa e nos forçando a buscar soluções inovadoras não apenas em resposta ao problema ao qual ela deve solucionar, mas como condição para nossos próprios empreendimentos.

Diversas teorias colocam a obrigação da inovação como um começo – outras consideram a inovação um fim… mas talvez aí estejamos perdendo o fio da meada: a inovação eficaz é um meio.

Ideias não tão inovadoras são muitas vezes deixadas de lado quando nos pautamos pela obrigação de perseguir a inovação desde nossos primeiros passos, outras acabam sofrendo desvios em relação à sua eficácia, em prol de algum ineditismo. A verdade é que somos mais inovadores do que muitas vezes podemos considerar, contudo não tão inovadores ao ponto de gerar apenas ideias que nunca antes tenham sido aventadas. Grandes empresas e produtos surgiram, e ainda surgem, de ideias que em seu estágio preliminar não possuíam tal brilhantismo.

Do mesmo modo, ao estabelecer a inovação como um fim, abrimos caminho para uma frustração muitas vezes despropositada. Uma ideia sem grande caráter inovador pode, muitas vezes, responder de modo eficaz ao problema proposto – desse modo estaríamos nos frustando, mesmo nos casos nos quais o problema foi satisfatoriamente resolvido. A pergunta aqui é muito simples: inovar, pura e simplesmente, ou responder ao problema apresentado? Se formos seguir tudo aquilo que conhecemos a respeito de startups e de empreendedorismo moderno, creio que ficaremos com a segunda opção.

Inovação como meio

Tendemos naturalmente a associar criatividade com inovação – claro que ambas estão relacionadas, mas pode ser um erro tomar uma pela outra. Tentaram convencer-me, em algumas conversas que tive recentemente, de que a inovação é o próprio ato de concepção da ideia que, “teoricamente”, resolve o problema proposto. Discordo: uma das característica da inovação é ser plausível e executável. Vou exemplificar… o problema dos congestionamentos e mobilidade nos grandes centros urbanos implora atualmente por soluções inovadoras.

Tenho uma “ideia”, então: que tal inserirmos o teletransporte na matriz urbana? Bom, isso certamente resolveria o problema de modo praticamente instantâneo, pena que não possuímos hoje tecnologia e meios plausíveis de executar uma ideia como essa. Pode ser um exemplo extremo, mas o mesmo se aplica a qualquer produto ou startup idealizados – até que se prove executável e plausível, temos apenas um sonho, não uma inovação.

Como tento ilustrar no gráfico abaixo, após a concepção de uma ideia, a primeira pergunta é em relação à sua possibilidade de execução: caso possa ser executada, só então analisaremos seu caráter inovador ou não. Partindo desse pressuposto, na verdade o processo de INOVAÇÃO ocorreria ao longo da área marcada com hachura, a qual preferi chamar de “campo de inovação”. É nele que as verdadeiras inovações ocorrem, provando sua efetividade e podendo seguir em frente, já na forma de MVPs ou protótipos. Quaisquer outras ideias que se tenham provado implausíveis ou sem possibilidade de execução levam o empreendedor novamente à fase de ideação – não, elas não darão origem a produtos inovadores.

CAMPO INOVAÇÃO

Aliás, o gráfico nos leva a mais um paradigma interessante em muitas das “inovações” presentes em nosso mercado. Como produtos que, segundo seus idealizadores, são completamente disruptivos e revolucionários, encontram dados, referências de mercado e benchmarks com tamanha facilidade?

Inovações levam a dados incertos, suposições e cálculos aproximados e mais a sucedâneos do que a benchmarks e concorrentes. Entretanto, no universo das “certezas startupeiras”, são geralmente os produtos mais inéditos e inovadores aqueles que afirmam mais categoricamente suas posições, geralmente com base em dados não verificados de terceiros.

Mas que diferença isso faz?

Após tudo isso, essa é a pergunta que me ocorreria. A resposta é simples: conscientes da inovação como um meio, não como prerrogativa ou objetivo, concentramos nossos esforços naquilo que realmente faz uma startup, a execução de um modelo de negócio. A complexa palavra “procrastinação” está na moda… acho ótimo, hoje em dia nos falta algum português rebuscado. Contudo, alguns parecem não compreender do que se trata tal vocábulo. O termo voltou à moda exatamente para se referir a modelos e ideias relacionadas a nosso segmento que jamais sairão do papel, por mais inovadores que possam parecer.

Então agora, em relação àquele seu projeto… que tal parar de tentar ser “disruptivo” ou “trendy” e botar a mão na massa? Depois você pode pensar em ser inovador…



2 Comentários

  1. Tinha perdido esse texto, fantástico.

    Compartilho bastante disso.

    Abs

    Rodrigo
    http://www.vindi.com.br
    http://sonhogrande.com

  2. Thais says:

    Muito bom o texto! As vezes a “inovaçao” está em simplesmente não querer reinventar a roda, simplesmente adaptar a realidade!