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5 lições de empreendedorismo na padaria do seu bairro

Estamos todos ávidos por buscar dicas e lições de empreendedorismo com grandes nomes do mercado, exaltados e exacerbados pela imprensa especializada. Nada de errado em querer aprender, mas será mesmo que o “sucesso”, como muitos gostam de dizer, está enclausurado apenas nas páginas de umas poucas revistas e sites do segmento empresarial? Desde pequenos, convivemos com um negócio extremamente promissor no Brasil, que ao longo dos tempos foi capaz de se reinventar e prevalecer, enquanto dezenas de outros modismos vinham e depois desapareciam: as padarias.

Apesar de sabermos que aquela padaria da esquina de casa permanece ali, cheia e lotada, faz pelo menos 40 anos, nunca nos demos ao trabalho de ali buscar lições de empreendedorismo. Por quê? O dono da padaria não estudou em Stanford ou leu todos os livros maravilhosos que você já ostentou na cabeceira, mas o fato é que modismo após modismo, crise após crise, geração após geração… ele está lá, firme e forte. Como?

São fortes as lições de empreendedorismo que esses imbatíveis e indestrutíveis estabelecimentos têm para nos passar, quer estejamos na “onda startup” ou em qualquer outra. Palavras moderninhas, como resiliência, são algo que padeiros têm de sobra há um século. Neste texto, vamos tentar entender e observar de perto a rotina e o modo de atuar dessas padarias, para aprender pelo menos 5 lições de empreendedorismo que muitos dos gurus da moda e cursos de figurões não podem ensinar.

1. Commodity e referência

Pense direito – o que uma padaria vende? Pão, não é mesmo. O mais engraçado é que muitas padarias de bairro sequer têm algum lucro relevante vendendo o seu principal produto. Então, como elas ganham dinheiro? Simples: na variedade e atraindo o cliente até o local. O pão é a grande referência de qualquer padaria. Há pessoas dispostas a cobrir o dobro da distância apenas para encontrar um pão francês (ou jacó, ou de sal, dependendo de onde você está no Brasil) mais gostoso.

Contudo, uma vez na padaria, sempre levamos algum quitute ou compramos artigos básicos de emergência, como leite, queijos, frios ou até sobremesas. É nesses produtos que o padeiro enche o bolso. O produto de entrada, que todo mundo tem, não é a fonte de lucro, apenas uma ferramenta eficiente de publicidade boca-a-boca a custo zero. Será que sua startup tem algo assim?

2. Senso de comunidade

Todas as padarias que prevaleceram a crises e aos tempos possuem um enorme senso de comunidade. Acabam se tornando o local no qual as pessoas param de manhã para ver o jornal, se juntam para discutir fatos do dia a dia envolvendo o bairro e, mais importante, o local que procuram quando precisam de algum produto ou serviço que não encontram no restante da região. Quantas vezes você viu, por exemplo, pessoas deixarem carnes, pernis e perus em padarias na época do Natal para “assar”. O que acaba sendo algo que não dá muita despesa ou trabalho para o padeiro, faz toda a diferença para o cliente.

3. Check out

Todos os grandes supermercados do país e seus especialistas em marketing falam a respeito das elaboradas técnicas para “empurrar” produtos para clientes próximo aos caixas, e o mesmo ocorre com serviços de e-commerce, que sugerem automaticamente produtos para clientes que estão finalizando suas compras. Entretanto, se lembrarmos direito, os caixas de padaria já realizam esse tipo de prática há mais de cinco décadas, e podem ser com justiça apontados como inventores dessa eficiente ferramenta de marketing e merchandising.

Padarias usam do posicionamento em sua loja para conseguir descontos junto a fornecedores e efetuam “testes A/B” nos produtos que dispõem próximos dos caixas, avaliando aqueles de maior saída e inclusive reformulando suas listas de compras a depender do que a demanda lhes mostra.

4. Investimento e saída

Você pode não saber, mas a prática de investimento e saída hoje existente no segmento de startups e empresas digitais não é algo novo – padarias usam dessa prática há muito tempo. Alguns donos de padaria eventualmente vendem ou alugam seus pontos, passando a outras padarias não tão bem sucedidas. Nesses novos pontos, eles fazem algum investimento e levantam a performance do negócio, passando eventualmente parte ou a totalidade da “nova” padaria para um novo proprietário, e lucrando na saída.

A grande diferença em relação a essa prática entre padarias é que, nesse caso, os investidores necessariamente são grandes conhecedores do segmento, ao contrário do que vemos com muitas startups. Os investimentos e ajustes que eles perfazem também se limitam ao mínimo possível para maximizar o lucro na saída. Ao contrário das startups, não esperam que seu negócio “ganhe tração”, e estão sempre abertos a ofertas que possam dar a eles lucro suficiente e capital para partir para o próximo negócio.

5. Diversidade com foco

Padarias inserem novos produtos e serviços em seu portfólio quase que diariamente, produzindo mais lucro a partir da diversidade. Do mesmo modo, por vezes excluem produtos de seu mix. Entretanto, nenhuma padaria perde jamais seu foco no modelo de negócio – oferecer pão e comodidade. As mudanças são necessariamente feitas a partir de pedidos da clientela e não se ouve falar de “pivotagens” que mudem drasticamente o modelo inicial. A razão é muito simples: o modelo primordial é exatamente o que permite ao padeiro diversificar seu mix de produtos e, caso modifique a base de seu negócio, corre riscos desnecessários de perder o fio da meada – uma das principais lições de empreendedorismo, a de reduzir riscos.

O mesmo não se pode dizer de muitas startups. Na sede de ganhar escala, modelos são completamente contaminados com tendências passageiras e supostas possibilidades de maior ganho – em nome da escala, sacrifica-se um modelo promissor que provavelmente ganharia tração com o tempo. Padeiros sabem esperar e formar clientela – será que você sabe também?



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